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Paraná gastou R$ 153 milhões com plataformas digitais na educação pública em três anos

Contratos com empresas nacionais e estrangeiras para leitura, inglês, matemática e gestão escolar transformaram a rotina das escolas estaduais e colocam em debate o impacto real desses gastos na aprendizagem

Paraná gastou R$ 153 milhões com plataformas digitais na educação pública em três anos Créditos: Gazeta do Paraná

Entre 2021 e 2024, o Governo do Paraná destinou R$ 153,3 milhões para a contratação de plataformas digitais educacionais. O número, apurado a partir de dados do Portal da Transparência e sistematizado no artigo “Do trabalho digital ao ensino plataformizado” - da pesquisadora e professora da UFPR, Carolina Batista Israel - dá a dimensão financeira de uma transformação silenciosa, porém profunda, no funcionamento da rede estadual de ensino.

Os recursos públicos foram direcionados a contratos de licenciamento de softwares educacionais, majoritariamente no modelo Software as a Service (SaaS), em que o Estado paga pelo direito de uso temporário das plataformas. Não se trata de aquisição definitiva de sistemas, mas de pagamentos recorrentes por licenças, renovações e acessos, o que faz com que os custos se acumulem ano após ano.

O maior desembolso individual identificado no período foi com a plataforma Inglês Paraná, operada pela empresa suíça EF Education First. Somente esse contrato consumiu R$ 31,47 milhões entre 2021 e 2025, tornando-se o serviço educacional digital mais caro da rede estadual. Em seguida, aparece o programa Edutech, baseado na plataforma brasileira Alura, que somou mais de R$ 34 milhões em diferentes contratos firmados entre 2021 e 2024.

Outro contrato de alto impacto financeiro é o da plataforma Leia Paraná, operada pela empresa espanhola Odilo, utilizada como biblioteca digital e sistema de leitura obrigatória para estudantes. O custo do serviço alcançou R$ 16,55 milhões em um único contrato válido por três anos. Ao contrário de programas complementares, o uso da plataforma passou a integrar a rotina escolar, substituindo, em muitos casos, o livro físico.

Os números seguem em escalada quando se observa o conjunto de plataformas voltadas ao ensino de matemática e atividades gamificadas. A plataforma australiana Matific acumulou R$ 25,3 milhões em contratos ativos desde 2021. Já o sistema Quizizz, utilizado no programa Desafio Paraná, recebeu R$ 6,22 milhões para fornecer atividades avaliativas gamificadas aos alunos da rede.

Além das plataformas diretamente ligadas ao conteúdo pedagógico, o Estado também investiu pesado em ferramentas de gestão e monitoramento educacional. Apenas com o Power BI, software da Microsoft utilizado para consolidar e analisar dados de desempenho, frequência e uso das plataformas, o Paraná gastou R$ 5,26 milhões em contratos firmados entre 2021 e 2024.

Somados, esses valores revelam uma política de investimento contínuo e crescente em soluções digitais. Em pouco mais de três anos, o montante ultrapassa a marca de R$ 150 milhões, valor suficiente para construir dezenas de escolas de médio porte ou adquirir milhões de exemplares de livros didáticos físicos. Ainda assim, os contratos firmados não resultam em patrimônio tecnológico próprio do Estado: encerrado o prazo, o acesso depende de novas renovações.

O estudo que levanta esses dados aponta que a maior parte das empresas contratadas tem sede fora do Brasil, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Isso significa que parcela relevante dos recursos públicos investidos na educação estadual é transferida para companhias estrangeiras, por meio de contratos de licenciamento e prestação de serviços digitais.

Como complemento a esses dados financeiros, a pesquisa contextualiza que a expansão das plataformas ocorreu dentro do programa Educação para o Futuro, lançado em 2020 e financiado com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Documentos analisados indicam que o financiamento internacional esteve condicionado à ampliação do uso de tecnologias educacionais, à digitalização da gestão escolar e à adoção de sistemas de acompanhamento baseados em dados.

Na prática, os investimentos se traduziram em uma ampla substituição de materiais e práticas tradicionais por ambientes digitais: leitura, exercícios, avaliações e tarefas passaram a ocorrer dentro de plataformas contratadas, muitas delas com uso obrigatório. Em paralelo, sistemas de gestão consolidaram informações de estudantes e professores em painéis digitais, permitindo acompanhamento centralizado da rede.

O levantamento não entra no mérito pedagógico da eficácia dessas ferramentas, mas chama atenção para a escala financeira do processo. Os valores pagos revelam que a digitalização do ensino no Paraná deixou de ser um projeto piloto ou complementar e passou a ocupar lugar central no orçamento educacional.

Mais do que uma mudança metodológica, os contratos mostram uma redefinição estrutural do gasto público em educação: menos investimento em bens permanentes e mais recursos destinados a serviços digitais recorrentes. Um modelo que, pelos números já empenhados, tende a seguir crescendo e que coloca o Paraná entre os estados que mais investiram, em termos absolutos, na compra de plataformas educacionais nos últimos anos.

Os dados impressionam não apenas pelo volume, mas pela velocidade com que se acumularam. Em apenas três anos, a educação pública paranaense se tornou um mercado multimilionário para empresas de tecnologia — um movimento que, pelo histórico recente de renovações contratuais, ainda está longe de chegar ao fim.

Série de reportagens

Mas diante de um investimento que já ultrapassa R$ 150 milhões, a pergunta inevitável é: qual é o impacto real desse dinheiro na aprendizagem dos estudantes? Os resultados educacionais melhoraram de forma mensurável? Como os professores, que lidam diariamente com essas plataformas em sala de aula, avaliam essas ferramentas? Trata-se de um investimento consistente em educação pública ou de um modelo que, na prática, transfere milhões de reais do orçamento estadual para empresas privadas de tecnologia, muitas delas estrangeiras, por meio de contratos recorrentes e licenças temporárias? Essas são as questões que a Gazeta do Paraná vai buscar responder a partir destes dados. Ao longo de uma série de reportagens, o jornal irá analisar contratos e aditivos, examinar o funcionamento das plataformas, ouvir professores da rede estadual e confrontar números com a realidade das escolas. Acompanhe!.

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