Créditos: Jorge Rodrigues/AGIF/Folhapress
Entenda os próximos passos da recuperação judicial do Botafogo e o risco de 'transfer ban'
Decisão da 2ª Vara Empresarial do Rio suspende cobranças e bloqueios contra o clube alvinegro, cujo passivo total chega a R$ 2,5 bilhões. Gestão aponta problemas no sistema financeiro do grupo de John Textor
A Justiça do Rio de Janeiro aceitou o pedido de recuperação judicial da SAF do Botafogo e deu início formal ao processo de reestruturação financeira da empresa responsável pela gestão do futebol alvinegro. A decisão foi assinada pelo juiz Marcelo Mondego de Carvalho Lima, da 2ª Vara Empresarial do Rio.
Com o deferimento do pedido, ficam suspensas ações de cobrança, execuções, bloqueios judiciais, penhoras e outras medidas contra a sociedade relacionadas às dívidas incluídas no processo de recuperação judicial. A medida garante um período de proteção para que a SAF tente reorganizar suas finanças e negociar com credores sem sofrer pressão imediata de cobranças judiciais.
O magistrado também definiu como marco inicial da recuperação judicial o dia 21 de abril de 2026, data em que havia sido protocolada a medida cautelar antecedente. Dessa forma, os débitos originados antes desse período passam a integrar o processo de recuperação.
Dívida bilionária
No pedido apresentado à Justiça, a SAF Botafogo informou enfrentar uma grave crise financeira. Segundo a empresa, o passivo total chega a aproximadamente R$ 2,5 bilhões. Desse montante, cerca de R$ 1,28 bilhão estaria diretamente sujeito à recuperação judicial.
A sociedade atribui parte do agravamento da situação financeira a problemas envolvendo o Grupo Eagle Football, ligado ao empresário John Textor, antigo controlador da SAF.
De acordo com o Botafogo, o modelo de gestão adotado pelo grupo funcionava por meio de um sistema de “cash pooling”, mecanismo de centralização e circulação de recursos financeiros entre os clubes administrados pela holding, como o Lyon, da França, e o RWDM Brussels, da Bélgica.
Segundo a SAF, dificuldades financeiras enfrentadas pelo Lyon, incluindo exigências de novos aportes e sanções esportivas, acabaram impactando diretamente o caixa do Botafogo. A empresa afirma que recursos enviados a outros clubes do grupo não retornaram, o que teria contribuído para o crescimento do endividamento.
O clube também alegou que disputas societárias internas e o rompimento do sistema de compartilhamento financeiro agravaram ainda mais a crise. Conforme o pedido, decisões recentes da controladora teriam priorizado outros clubes do grupo em detrimento da saúde financeira do Botafogo.
Risco de punições esportivas
A SAF sustentou ainda que o pedido de recuperação judicial também foi motivado pelo risco de punições aplicadas pela Fifa.
Entre as possíveis sanções citadas estão o “transfer ban”, que impede o registro de novos jogadores, além de eventual perda de pontos em competições nacionais.
Segundo o Botafogo, essas penalidades poderiam gerar impactos esportivos e financeiros severos, comprometendo ainda mais a situação do clube. A empresa argumenta que o processo de recuperação judicial seria uma tentativa de mitigar ou reverter essas consequências perante a entidade máxima do futebol mundial.
Nomeação de gestor judicial
Na mesma decisão, o juiz confirmou a nomeação de Eduardo Iglesias como gestor judicial da SAF Botafogo. Ele assume a função após Durcésio Mello recusar o encargo por motivos pessoais.
A escolha foi aprovada em assembleia e posteriormente homologada pela Justiça. Também foram definidos os administradores judiciais que acompanharão o andamento do processo e a execução do futuro plano de recuperação financeira.
Próximos passos
A SAF Botafogo terá agora um prazo de 60 dias para apresentar à Justiça um plano de recuperação judicial. No documento, o clube deverá detalhar as estratégias para renegociação das dívidas e as medidas previstas para tentar restabelecer o equilíbrio financeiro da empresa.
Após a divulgação da lista oficial de credores, os envolvidos poderão apresentar objeções ao plano.
O objetivo do processo é permitir que a sociedade consiga superar a crise financeira, mantendo as atividades econômicas, preservando empregos e garantindo os direitos dos credores.
A decisão ocorre em meio a disputas societárias envolvendo a SAF Botafogo e a Eagle Bidco, acionista majoritária da empresa. Segundo a decisão judicial, há discussões paralelas em procedimentos arbitrais, e o magistrado determinou que as partes também se manifestem sobre esses pontos no processo.
