Sem suporte especializado, inclusão de crianças com TEA na escola ainda é realidade distante
Falta de profissionais de apoio, adaptação pedagógica insuficiente e despreparo das redes de ensino comprometem o desenvolvimento de alunos com autismo, apesar das garantias legais
Créditos: CMH/Divulgação
A legislação brasileira assegura o direito à educação inclusiva para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Na prática, porém, a realidade vivida por milhares de famílias ainda está distante do que prevê a lei. Em muitas escolas, a inclusão se limita à matrícula, sem que haja suporte especializado, adaptações pedagógicas adequadas ou profissionais capacitados para atender às necessidades desses alunos.
O resultado é um ambiente que, em vez de promover aprendizado e socialização, pode gerar sofrimento emocional, ansiedade e atrasos no desenvolvimento. A situação expõe uma fragilidade estrutural do sistema educacional e evidencia que a inclusão efetiva ainda não se consolidou como política pública no país.
Dados do Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que o número de matrículas de estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades cresce ano após ano. Em 2023, mais de 1,7 milhão de alunos da educação especial estavam matriculados na rede regular de ensino. Apesar do avanço numérico, especialistas alertam que o aumento das matrículas não foi acompanhado, na mesma proporção, pela oferta de suporte especializado.
Impactos no desenvolvimento
Segundo o pedagogo e psicopedagogo em formação Rian Ricardo de França, a ausência de apoio adequado pode provocar impactos profundos e duradouros no desenvolvimento das crianças com TEA.
“A falta de suporte especializado afeta diretamente áreas como linguagem, atenção, memória e funções executivas. Também compromete a comunicação, tanto verbal quanto não verbal, dificultando que a criança expresse sentimentos e necessidades”, explica.
Além dos prejuízos cognitivos, o especialista destaca os impactos emocionais. “É comum observar aumento da ansiedade, frustração, baixa autoestima e dificuldades de autorregulação emocional. Em muitos casos, surgem comportamentos desafiadores, como isolamento social, crises sensoriais e agressividade, que são respostas à falta de estratégias adequadas de intervenção”, afirma.
Outro ponto sensível é a perda da chamada janela de intervenção precoce, considerada fundamental para potencializar o desenvolvimento, a autonomia e a qualidade de vida da criança ao longo dos anos.
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Inclusão formal x inclusão efetiva
Para Rian, é essencial diferenciar inclusão formal de inclusão efetiva no ambiente escolar. A primeira ocorre quando a criança está matriculada na escola regular, mas permanece à margem do processo educacional.
“Nesses casos, não há adaptações pedagógicas, o currículo não é flexibilizado, não existe acompanhamento especializado e o aluno acaba apenas presente fisicamente na sala de aula, muitas vezes isolado”, pontua.
Já a inclusão efetiva, segundo o especialista, acontece quando o estudante participa das atividades, recebe ensino adaptado às suas necessidades, conta com mediação pedagógica e apresenta progresso acadêmico, social e emocional. “Incluir de verdade é garantir aprendizagem, pertencimento e desenvolvimento, não apenas cumprir a exigência legal da matrícula”, resume.
Desafios para famílias
A falta de estrutura nas escolas acaba transferindo o peso da inclusão para as famílias. Muitos pais relatam a necessidade de acionar o Ministério Público ou recorrer à Justiça para garantir direitos como mediador escolar, plano educacional individualizado ou adaptações curriculares, todos previstos em lei.
Esse cenário aprofunda desigualdades, já que famílias com menor acesso à informação ou recursos jurídicos enfrentam ainda mais dificuldades para assegurar o atendimento adequado aos filhos.
Caminhos para uma escola inclusiva
Para que a inclusão saia do papel, Rian Ricardo de França defende medidas práticas e estruturais por parte das escolas e redes de ensino. Entre elas estão a formação continuada de professores e equipes pedagógicas, a elaboração e aplicação do Plano Educacional Individualizado com metas claras e acompanhamento constante, além da disponibilização de profissionais de apoio, como mediadores escolares e psicopedagogos.
O especialista também destaca a importância da adaptação curricular, do uso de recursos visuais e tecnologias assistivas e da criação de ambientes sensorialmente adequados, com redução de ruídos excessivos e espaços para regulação emocional.
“A inclusão só se torna real quando existe uma cultura escolar baseada no respeito à diversidade, na empatia e no combate ao preconceito. Isso envolve toda a comunidade escolar, não apenas o professor em sala de aula”, afirma.
Muito além da matrícula
O debate sobre a realidade das crianças com TEA no ambiente escolar revela que o desafio da inclusão vai muito além da legislação. Sem investimento, planejamento e conscientização, a escola corre o risco de reforçar a exclusão que deveria combater.
Garantir suporte especializado não é um privilégio, mas uma condição essencial para que crianças com autismo tenham acesso pleno à educação, ao desenvolvimento e à convivência social, como determina a lei e como exige uma sociedade verdadeiramente inclusiva.
