Após áudios da Sanepar, empresa contratada pelo governo aparece em depósitos para o PSD
Produtora contratada por Secom, Detran e BRDE e seu sócio figuram em registros de arrecadação informal de 2022, com depósitos repetidos de R$ 5 mil, em contexto investigado após áudios da Sanepar
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Fernando Frazao/EBC
Os depósitos se repetem. Sempre no mesmo valor. Sempre fracionados. Em poucos dias, uma sequência quase mecânica de transferências de R$ 5 mil passa a aparecer em registros de arrecadação política informal revelados pela Gazeta do Paraná, a partir de áudios que descrevem um esquema de arrecadação no entorno da Sanepar. Entre os nomes relacionados nesses registros surgem uma empresa de produção audiovisual e seu sócio. Não se trata de dirigentes partidários nem de figuras políticas conhecidas, mas de uma empresa com histórico consistente de contratos com o poder público no Paraná.
A empresa é a Constelação Filmes Ltda, registrada sob o CNPJ 05.758.725/0001-67, fundada em 2003, com sede em Curitiba e atuação concentrada na produção audiovisual. Do ponto de vista formal, conforme registros da Receita Federal, a empresa está vinculada ao sócio-administrador Tommy Singh Deiro. Socialmente, no entanto, quem é reconhecido como nome forte da Constelação Filmes é Carlos Deiró, figura amplamente conhecida na sociedade curitibana e que construiu reputação profissional também fora do Paraná, sendo associado publicamente à condução e à imagem da empresa no mercado audiovisual.
Ao longo de mais de duas décadas, a Constelação Filmes manteve relações continuadas com o setor público. Em 2012, aparece em registros oficiais da Câmara dos Deputados como fornecedora de serviços de divulgação da atividade parlamentar, com despesas custeadas pela Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar, quando Sandro Alex, hoje secretário estadual, exercia mandato de deputado federal. Em 2016, a empresa volta a figurar em documentos públicos, desta vez como prestadora de serviços do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). Relatório de execução contratual de publicidade do banco registra pagamento de R$ 230,8 mil à Constelação Filmes por serviços de produção audiovisual, um dos maiores valores individuais daquele exercício no âmbito da comunicação institucional da instituição financeira pública.
Nos anos mais recentes, a presença da empresa em contratos públicos se intensifica novamente. Relatórios oficiais do Governo do Paraná mostram que a Constelação Filmes figura de forma reiterada na rubrica de “Investimentos em Produção”. Em 2023, aparece vinculada ao Detran/PR. Em 2024 e 2025, consta como fornecedora direta da Secretaria de Estado da Comunicação (Secom), indicando três anos consecutivos de participação em ações de comunicação institucional do Executivo estadual.
Além da relação direta com órgãos públicos, a Constelação Filmes também presta serviços a empresas privadas que mantêm contratos expressivos com o Governo do Paraná. Entre elas está a Caio Gottlieb Comunicação e Marketing, agência que possui contratos de alto valor com diferentes pastas do governo estadual. A atuação da Constelação como fornecedora de uma empresa que, por sua vez, executa campanhas e serviços para o Estado amplia o alcance de sua inserção no ecossistema da comunicação pública paranaense, ainda que de forma indireta.
É nesse contexto que surgem os registros de arrecadação informal divulgados pela Gazeta do Paraná. A chamada “lista de depósitos” não é um documento oficial de partido nem integra prestações de contas formais registradas na Justiça Eleitoral. Ela decorre da análise de áudios tornados públicos pelo jornal, nos quais interlocutores ligados ao ambiente político e administrativo da Sanepar descrevem um mecanismo informal de arrecadação, baseado em contribuições pulverizadas, realizadas por diferentes pessoas físicas e jurídicas, sempre em valores idênticos.
Nos diálogos revelados, os interlocutores mencionam explicitamente a necessidade de evitar grandes transferências, optando por depósitos sucessivos de R$ 5 mil, feitos em datas próximas, como forma de reduzir rastreamento e diluir responsabilidades. A partir desses áudios, passou a circular uma relação de nomes, datas e valores que indicaria quem participou desse fluxo de arrecadação política informal.
Enquanto isso, nos registros de arrecadação informal revelados pela Gazeta do Paraná, a Constelação Filmes aparece associada a uma sequência de depósitos realizados em 2022. No dia 12 de julho daquele ano, a empresa efetuou cinco depósitos de R$ 5 mil. Nos dias 14, 15 e 18, fez novos depósitos no mesmo valor. Já no dia 19 de julho de 2022, o sócio-administrador Tommy Singh Deiro realizou mais cinco depósitos de R$ 5 mil, totalizando R$ 65 mil em menos de dez dias, sempre em valores idênticos e fracionados. É esse padrão que faz com que a empresa e seu sócio apareçam na chamada lista de depósitos associada ao PSD, partido citado nos áudios que tratam da arrecadação no entorno da Sanepar.
Não há, até o momento, decisão judicial que confirme a autenticidade dos áudios nem prova pericial que valide seu conteúdo. Tampouco há comprovação de que os valores depositados tenham origem em recursos públicos ou vínculo direto com contratos administrativos específicos. Ainda assim, a coincidência entre o padrão descrito nas gravações e o padrão observado nas transferências confere relevância pública ao caso.
A legislação eleitoral não proíbe empresas ou pessoas físicas de realizarem doações partidárias, desde que observadas as regras vigentes à época e que os valores sejam devidamente declarados. Também não é irregular, por si só, que empresas prestem serviços ao Estado ou a empresas contratadas pelo Estado. O ponto sensível da apuração está na sobreposição de elementos objetivos: contratos públicos diretos e indiretos, atuação em um setor historicamente difícil de auditar, presença de um nome socialmente associado à empresa com forte inserção no mercado local e nacional e depósitos fracionados que reproduzem exatamente o método narrado em denúncias envolvendo uma das principais estatais do Paraná.
Diante desse conjunto de informações, a apuração conduz inevitavelmente a um questionamento que extrapola o debate político e alcança o campo institucional: os depósitos padronizados atribuídos à Constelação Filmes Ltda e a seu sócio-administrador constam formalmente das prestações de contas eleitorais analisadas pela Justiça Eleitoral? Caso positivo, em que rubrica, em nome de quem e vinculados a qual campanha ou diretório partidário esses valores foram declarados. Caso negativo, por qual razão transferências fracionadas, reiteradas e concentradas em curto espaço de tempo não foram identificadas nos mecanismos de controle e fiscalização eleitoral. A resposta a essas perguntas é fundamental para esclarecer se os registros revelados permanecem no campo das coincidências administrativas ou se demandam apuração formal por parte das autoridades competentes.
Créditos: Redação
