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"Mais cruel que Nardoni e Cravinhos": Autor de 'Diário de Tremembé' lança livro sobre justiceiro de SP
Conhecido por relatar os bastidores do "presídio dos famosos", jornalista lança obra baseada na trajetória de Herculano, homem que afirma ter executado mais de mil pessoas na Grande SP
O jornalista e escritor Acir Filló, conhecido nacionalmente pelo livro “Diário de Tremembé - O Presídio dos Famosos”, voltou aos holofotes com o lançamento de uma nova obra que mergulha no universo da violência urbana, da justiça paralela e das marcas deixadas pela ausência do Estado nas periferias brasileiras. O novo livro, intitulado “O Coveiro de São Paulo – Eu matei mais de mil pessoas”, retrata a trajetória de um homem que afirma ter executado mais de mil pessoas ao longo de cerca de duas décadas na Grande São Paulo.
A obra amplia a atuação de Filló no gênero true crime, segmento em que ganhou notoriedade nacional após relatar os bastidores da Penitenciária de Tremembé, no interior paulista, conhecida por abrigar criminosos envolvidos em alguns dos casos mais emblemáticos do país.
Acir Filló cumpriu pena em Tremembé e foi um dos presos que apareceu na série famosa. A experiência dentro do presídio originou “Diário de Tremembé”, livro em que descreveu a convivência com detentos famosos, os códigos internos da prisão, disputas de poder entre os presos e o que chamou de “pacto tácito” entre o sistema penitenciário e criminosos de grande repercussão para evitar conflitos e manter o controle dentro da unidade.
A repercussão da obra aumentou ainda mais após o lançamento da série “Tremembé, a prisão dos famosos”, do Prime Video, inspirada nos relatos do jornalista. Segundo Filló, a produção ajudou a despertar interesse internacional pela história do presídio e pelas experiências que viveu no local.
Em “Diário de Tremembé”, Filló relatou convivência com nomes como Alexandre Nardoni, Cristian e Daniel Cravinhos, Roger Abdelmassih, Mizael Bispo e Gil Rugai. O autor afirma, porém, que nenhum desses personagens o impactou tanto quanto Herculano, protagonista de sua nova obra.
“Desses personagens, o mais épico, extraordinário e cruel é Herculano”, declarou.
Segundo o jornalista, o novo livro nasceu após anos de convivência e entrevistas com o personagem, que teria atuado durante cerca de 20 anos executando criminosos na região metropolitana de São Paulo. Apesar do título, Filló afirma que Herculano não era um coveiro literal. A referência à “pá” seria simbólica, associada à ideia de “enterrar o mal”.
“Eu convivi com ele, entrevistei por desafio e posso garantir que os leitores terão nas mãos um livro que vai mudar paradigmas”, afirmou.
O autor sustenta que a obra não busca glorificar a violência nem transformar o personagem em herói. Para Filló, Herculano é consequência de um país marcado pela desigualdade, pelo abandono social e pela falência do sistema de segurança pública.
“O justiceiro também é criminoso. Ele utiliza a mesma barbárie para realizar suas supostas vinganças. Ele age na ilegalidade ocupando um espaço que pertence ao Estado”, afirmou.
No livro, Herculano é apresentado como uma criança criada em bairros periféricos de São Paulo, em meio à pobreza extrema, violência doméstica e abandono familiar. Segundo a narrativa, o personagem cresceu convivendo com agressões praticadas pelo pai alcoólatra contra a mãe, até mergulhar no universo da violência ainda na adolescência.
“Ele não nasceu monstro. Foi fabricado por uma sociedade e por um Estado omisso e ausente”, argumenta Filló.
De acordo com os relatos presentes na obra, o primeiro homicídio teria ocorrido quando Herculano tinha apenas 16 anos, motivado por vingança pessoal. A partir dali, segundo o personagem, os assassinatos passaram a fazer parte da rotina.
“Não parei mais. Exterminar a escória da sociedade virou uma vocação”, relata Herculano em um dos trechos reproduzidos pelo autor.
Ao longo do livro, Filló também amplia o debate sobre desaparecimentos no Brasil, violência estrutural e a existência de possíveis cemitérios clandestinos espalhados pelo país. Segundo o escritor, o desaparecimento diário de centenas de pessoas, especialmente mulheres, jovens e crianças, é um dos temas centrais da obra.
“Por dia no Brasil desaparecem cerca de 200 pessoas. Onde estão elas?”, questiona o autor.
Em outro trecho, Filló afirma que “o Brasil é um gigantesco cemitério clandestino”, relacionando o avanço da violência à ausência histórica do Estado em regiões periféricas.
O escritor também cita fatores como desemprego, desigualdade social, precariedade da segurança pública e abandono das periferias como elementos que favorecem o surgimento de justiceiros no país. Entre os exemplos históricos mencionados está o caso do ex-policial Cabo Bruno, conhecido pela atuação em grupos de extermínio em São Paulo.
Além dos relatos de violência, “O Coveiro de São Paulo” também busca provocar reflexão sobre o avanço da justiça paralela e a descrença de parte da população nas instituições oficiais. Em vários momentos, Filló sustenta que Herculano seria um “reflexo do Brasil” e um sintoma de uma sociedade acostumada a conviver com violência cotidiana.
“É um livro que choca, mas revela a realidade de um país violento, controverso, onde a vingança é vista como saída para os problemas”, afirmou.
O novo lançamento reforça a trajetória de Filló no true crime brasileiro. Além de “Diário de Tremembé”, ele também é autor de uma biografia do vice-presidente Geraldo Alckmin. O jornalista afirma ainda que o novo livro já desperta interesse de produtoras ligadas ao segmento audiovisual e pode ganhar adaptações para séries ou documentários futuramente.
O lançamento oficial de “O Coveiro de São Paulo” aconteceu na Livraria Drummond, em São Paulo, em um evento promovido pela Editora Alcance que reuniu nomes do jornalismo investigativo, entre eles Valmir Salaro e Cláudia Albuquerque. O livro já está disponível para compra e pode ser encontrado na Amazon.
