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PF pede investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio Bolsonaro e advogado ligado ao caso INSS

Documentos obtidos pela Polícia Federal apontam possível acesso do senador a conta de empresa no exterior, pagamentos de viagens internacionais e movimentações financeiras sob investigação; Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam irregularidades.

Ana Zimermann · · 10 min de leitura
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro é citado em pedido de investigação encaminhado pela Polícia Federal ao STF para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz; ambos negam irregularidades.
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro é citado em pedido de investigação encaminhado pela Polícia Federal ao STF para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz; ambos negam irregularidades. — Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

A Polícia Federal encaminhou, ao Supremo Tribunal Federal (STF), um pedido de abertura de inquérito para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e o advogado Willer Tomaz, investigado em procedimentos relacionados a possíveis fraudes contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A apuração reúne registros bancários, correspondências eletrônicas, documentos empresariais e informações sobre viagens internacionais realizadas em 2025. O pedido foi distribuído ao ministro Alexandre de Moraes, que ficará responsável pela análise judicial do caso. 

A campanha de Flávio Bolsonaro, entretanto, afirma que o envio da documentação não significa que exista um inquérito formalmente instaurado contra o senador, uma vez que ainda não teria ocorrido manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) ou decisão judicial autorizando a abertura do procedimento. A distinção é importante porque a existência de indícios examinados pela Polícia Federal não representa conclusão sobre responsabilidade criminal. Até o momento, não há informação pública de denúncia apresentada pelo Ministério Público ou condenação relacionada aos fatos descritos. As informações sobre o pedido ao Supremo foram divulgadas inicialmente pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmadas pela Folha de São Paulo. A íntegra dos documentos enviados pela PF não foi disponibilizada publicamente nas fontes consultadas.

Documentos bancários indicam vínculo com empresa no exterior

Uma das principais linhas de apuração envolve a Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, da qual Willer Tomaz é sócio. De acordo com reportagem da Folha publicada em 10 de outubro, e-mails obtidos pela Polícia Federal indicam que Flávio Bolsonaro estava cadastrado com privilégios de administração em uma conta bancária relacionada à empresa, mantida no Santander. Em maio de 2025, uma funcionária ligada ao advogado solicitou ao banco a exclusão do nome do senador do cadastro. O conteúdo dessa comunicação passou a integrar os elementos examinados pelos investigadores. A expressão utilizada nos registros bancários, segundo as reportagens, seria "usuário master", modalidade que pode conferir permissões administrativas ou operacionais sobre uma conta. O registro, entretanto, não comprova que Flávio tenha movimentado recursos, recebido valores ou participado da propriedade da empresa. Também não foram apresentados publicamente extratos que demonstrem transferências entre a conta da Alcazar Holdings e contas pessoais do parlamentar.

Em manifestação divulgada à Folha, a assessoria de Flávio Bolsonaro negou a existência de conta compartilhada com Willer Tomaz e classificou as informações como falsas. O advogado também negou qualquer vínculo financeiro ou comercial com o senador, afirmando que a relação entre ambos é de amizade. A documentação mencionada está descrita na reportagem da Folha de S.Paulo: E-mails indicam que Flávio Bolsonaro dividia conta com suspeito de lavar dinheiro do INSS.

Viagens internacionais entram na apuração

Outro conjunto de documentos envolve deslocamentos internacionais realizados por Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e familiares em 2025. Segundo reportagem publicada em 16 de outubro, registros obtidos pela Polícia Federal indicam que a Cathedral Holdings, empresa constituída em Portugal e ligada ao advogado, intermediou pagamentos de voos executivos entre Portugal e França. A Cathedral é apontada como controladora da Rede Loto, empresa que atua no segmento de apostas e recebeu autorização da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj). Entre os deslocamentos examinados estão viagens entre Lisboa, Cascais e cidades francesas como Nice e Paris, realizadas em abril e maio de 2025.

A investigação procura esclarecer a origem dos recursos empregados nos pagamentos, a participação efetiva das empresas e a natureza dos deslocamentos. Questionado sobre as viagens, Flávio Bolsonaro afirmou que mantém uma relação exclusivamente pessoal com Willer Tomaz. A defesa do advogado sustenta que os custos foram assumidos por ele, com recursos próprios, e que os deslocamentos tiveram caráter particular, sem contrapartida comercial ou política.

O pagamento de despesas de viagem por terceiros não constitui, isoladamente, prova de lavagem de dinheiro. Para estabelecer eventual irregularidade criminal, seria necessário demonstrar elementos adicionais, incluindo a origem ilícita de recursos e atos destinados a ocultar ou dissimular sua movimentação. Os documentos relativos aos deslocamentos foram descritos na reportagem: Empresa de investigado por fraude do INSS pagou voos de Flávio Bolsonaro na Europa.

PF examina R$ 1,4 bilhão em movimentações associadas ao advogado e a apostas

As apurações financeiras envolvendo Willer Tomaz também incluem operações relacionadas à plataforma de apostas Blaze, administrada no Brasil pela Foggo Entertainment. Em reportagem publicada no domingo (18), o UOL informou que a Polícia Federal analisa aproximadamente R$ 1,4 bilhão em transações financeiras envolvendo o advogado, empresas associadas a ele e a plataforma de apostas. A investigação utiliza informações obtidas de arquivos armazenados na conta de iCloud do advogado e relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), segundo o veículo. Os investigadores examinam movimentações entre contas pessoais e empresariais, transferências sucessivas, pagamentos fracionados e operações relacionadas a plataformas de apostas.

Uma das hipóteses sob análise é que determinados recursos tenham circulado repetidamente entre contas e plataformas, dificultando a identificação de sua origem e destinação. Entre março e maio de 2025, a Polícia Federal identificou movimentações de aproximadamente R$ 130 milhões em uma conta pessoal do advogado no Magnum Bank, conforme os documentos relatados. Em março daquele ano, foram identificados créditos de R$ 2,05 milhões, incluindo R$ 1,05 milhão provenientes da empresa Embrasis. Parte desses recursos teria sido posteriormente transferida em operações sucessivas de R$ 100 mil à empresa responsável pela Blaze.

A análise policial considera a possibilidade de que o fracionamento de pagamentos e a passagem de recursos por diferentes contas tenham sido utilizados para dificultar o rastreamento financeiro. Isso, contudo, permanece como hipótese investigativa. O montante de R$ 1,4 bilhão representa o volume acumulado de operações examinadas, e não o valor comprovadamente lavado, desviado ou apropriado. Também não há demonstração pública de que essa quantia tenha sido movimentada por Flávio Bolsonaro ou de que corresponda a recursos provenientes das fraudes investigadas no INSS.

Willer Tomaz contesta os valores apresentados e nega ter utilizado plataformas de apostas para lavagem de dinheiro. O advogado afirma que sua relação com a Blaze se limitou à condição de cliente e que chegou a ajuizar uma ação judicial buscando recuperar R$ 163 milhões que afirma ter perdido em apostas. A Foggo Entertainment também negou qualquer participação societária, direta ou indireta, de Willer Tomaz no capital ou no controle da empresa. Os elementos financeiros foram detalhados na investigação jornalística do UOL: PF investiga R$ 1,4 bilhão em transações entre amigo de Flávio e site de aposta.

Documentos empresariais levam investigação ao Paraná

Parte das movimentações financeiras examinadas pela Polícia Federal envolve empresas de processamento de pagamentos, entre elas a RioPag e a Embrasis, cujas relações societárias também foram objeto de levantamento jornalístico. Em reportagem publicada em 8 de outubro, a Folha de S.Paulo informou que documentos registrados na Junta Comercial do Paraná (Jucepar) indicam que Willer Tomaz assumiu, por intermédio da Embrasis, o controle da RioPag em 2024. Segundo a publicação, informações de uma declaração retificadora de Imposto de Renda do advogado apontam o recebimento de aproximadamente R$ 67,79 milhões em rendimentos provenientes da Embrasis naquele ano. Os investigadores procuram identificar a efetiva estrutura societária das empresas, suas atividades operacionais e a correspondência entre os serviços prestados e o volume de recursos movimentado.

A existência de empresas relacionadas ao setor de pagamentos, assim como a realização de transferências de valores elevados, não constitui prova automática de irregularidade. Para caracterizar eventual lavagem de dinheiro, é necessário demonstrar o vínculo das operações com recursos de origem ilícita e mecanismos de ocultação ou dissimulação. Os registros societários citados na reportagem podem ser confrontados com os documentos arquivados na Junta Comercial do Paraná. A apuração foi publicada pela Folha: Advogado investigado por lavagem com bets comprou empresa de pagamentos.

Investigação relacionada ao INSS também examina movimentações patrimoniais

Willer Tomaz está entre os investigados em procedimentos relacionados à Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal para apurar irregularidades envolvendo recursos de aposentados e pensionistas. Em 4 de agosto de 2026, a corporação divulgou oficialmente uma nova fase da operação, destinada à investigação de possíveis práticas de lavagem de dinheiro. Na ocasião, foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, no Distrito Federal e no Maranhão. Segundo a comunicação oficial, a investigação identificou indícios de movimentações financeiras e patrimoniais realizadas por meio de pessoas físicas e jurídicas, contas bancárias de terceiros, estruturas empresariais e operações em espécie. O objetivo dos investigadores era esclarecer a origem e o destino dos recursos, a finalidade dos repasses e as responsabilidades individuais dos envolvidos.

A nota pública da Polícia Federal não identifica nominalmente Flávio Bolsonaro ou Willer Tomaz entre os alvos daquela etapa. Por isso, o documento serve como confirmação oficial da operação e de seus objetivos gerais, mas não comprova, isoladamente, as suspeitas específicas envolvendo o senador e o advogado. O comunicado está disponível no site da corporação: PF deflagra nova fase da Operação Sem Desconto para apurar lavagem de dinheiro.

Defesas negam irregularidades e questionam divulgação das informações

Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz rejeitam a existência de uma relação financeira irregular entre ambos. O senador afirma que mantém apenas uma relação de amizade com o advogado e nega ter compartilhado conta bancária nos termos divulgados pelas reportagens. Sua assessoria também questiona a divulgação das suspeitas durante a campanha presidencial, classificando as informações como falsas e sustentando que poderão ser adotadas medidas judiciais contra sua divulgação. A campanha afirmou, em 18 de outubro, que não havia inquérito formalmente instaurado contra Flávio Bolsonaro no STF.

Willer Tomaz, por sua vez, nega participação em esquema de lavagem de dinheiro, vínculo societário oculto com a Blaze ou qualquer relação financeira irregular com o senador. O advogado também contesta a interpretação das movimentações bancárias apresentadas nas reportagens. Sua defesa afirma que as operações relacionadas às apostas envolveram recursos próprios e questiona a divulgação de informações protegidas por sigilo. A empresa Foggo Entertainment declarou que Willer Tomaz não integra nem integrou sua estrutura societária e afirmou atuar de acordo com as normas aplicáveis ao setor.

O que ainda precisa ser esclarecido

A investigação apresenta diferentes frentes de apuração, mas os documentos divulgados até agora não permitem estabelecer uma conclusão sobre eventual responsabilidade criminal de Flávio Bolsonaro. Entre as questões pendentes estão a extensão do acesso atribuído ao senador à conta da Alcazar Holdings, a existência ou não de operações efetivamente realizadas por ele, a origem dos recursos destinados aos voos internacionais e a natureza das movimentações entre empresas de pagamentos e plataformas de apostas. Também depende de confirmação judicial a situação processual do pedido encaminhado pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal, especialmente quanto à eventual abertura formal de inquérito.

Até 19 de outubro, a documentação pública consultada não comprova que Flávio Bolsonaro tenha recebido recursos provenientes de fraudes no INSS, movimentado valores ilícitos ou participado de operações destinadas à lavagem de dinheiro. A apuração da PF procura justamente verificar se os elementos identificados representam relações pessoais e comerciais lícitas ou se existem fatos que justifiquem aprofundamento criminal. A conclusão dependerá da análise integral dos documentos financeiros, da identificação de eventuais operações suspeitas, das manifestações dos envolvidos e das decisões das autoridades responsáveis.

 

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