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Da terra aos edifícios: cemitérios verticais transformam o sepultamento no Paraná

Modelo adotado há décadas em Curitiba aparece em novos projetos no estado e modifica a maneira de sepultar os mortos, com estruturas de múltiplos pavimentos, tecnologias de controle ambiental e novas formas de utilização dos espaços funerários

Gazeta do Paraná · · 7 min de leitura
Cemitério vertical em Curitiba
Cemitério vertical em Curitiba — Crédito: Divulgação

A imagem tradicional de um cemitério, com túmulos distribuídos pelo terreno, lápides e corredores entre jazigos, já não representa todas as formas de sepultamento existentes no Brasil. Em algumas cidades, os mortos passaram a ocupar estruturas semelhantes a edifícios, onde os corpos são depositados em compartimentos individuais, distribuídos horizontalmente em paredes ou organizados em diferentes pavimentos. É o modelo dos cemitérios verticais, uma alternativa que começa a aparecer em novos projetos no Paraná, embora já esteja presente no estado há mais de três décadas.

A verticalização funerária representa uma mudança na organização dos espaços destinados aos mortos. Em vez de sepulturas escavadas diretamente no solo, os cemitérios utilizam lóculos, compartimentos construídos em concreto ou outros materiais resistentes, projetados para receber os caixões. Dependendo do empreendimento, essas estruturas podem ocupar edifícios inteiros, com corredores, elevadores, sistemas de ventilação e espaços reservados para cerimônias religiosas e homenagens.

No Paraná, Curitiba concentra um dos exemplos mais antigos e conhecidos desse modelo. O Cemitério Vertical de Curitiba, localizado no bairro Tarumã, iniciou suas atividades de sepultamento em 1990. Segundo informações divulgadas pelo empreendimento em 2025, mais de 34 mil sepultamentos já haviam sido realizados no local, que dispõe de 17.280 lóculos e 34.320 gavetas de ossuário.

A experiência curitibana demonstra que a verticalização não é exatamente uma novidade. O que chama a atenção é a presença do modelo em novos projetos municipais, inclusive em cidades que tradicionalmente utilizam cemitérios horizontais.

Projetos no interior

Em Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná, um projeto de ampliação do Cemitério Parque Iguaçu prevê a implantação de 8 mil jazigos verticais e duas capelas. Em julho de 2026, foi noticiada a emissão de licença ambiental para intervenções preparatórias relacionadas à ampliação. Na ocasião, o empreendimento ainda dependia de outras autorizações técnicas para avançar.

A dimensão do projeto chama a atenção porque representa a possibilidade de reunir milhares de espaços funerários em estruturas construídas para aproveitar melhor a área disponível. A implantação, entretanto, depende das etapas de licenciamento, execução das obras e definição do funcionamento das novas instalações.

Em Londrina, a Administração dos Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina (Acesf) relacionou entre seus projetos para 2026 a construção de lóculos verticais nos cemitérios Jardim da Saudade e São Pedro. A autarquia disponibilizou plantas das estruturas, indicando a adoção de soluções de sepultamento sobreposto em equipamentos funerários já existentes.

É importante distinguir esses projetos dos cemitérios verticais construídos como edifícios. A instalação de gavetários em cemitérios convencionais também representa uma forma de verticalização, mas não necessariamente envolve a criação de um complexo funerário de múltiplos pavimentos.

Em Cascavel, a discussão também chegou ao Legislativo municipal. Propostas relacionadas à verticalização dos sepultamentos aparecem desde pelo menos 2021. Em 2025, o vereador Dr. Lauri voltou a defender a alternativa durante debates sobre o prazo de exumação nos cemitérios municipais. Até o momento, porém, não há confirmação, nas informações levantadas para esta reportagem, da implantação de um novo cemitério vertical municipal na cidade.

O que acontece com os corpos

Uma das principais diferenças entre os cemitérios convencionais e os verticais está no tratamento dos produtos resultantes da decomposição dos corpos.

Nos sepultamentos tradicionais, o processo ocorre em contato com o ambiente do solo, o que exige cuidados relacionados à localização do cemitério, às características geológicas do terreno e à proteção das águas subterrâneas.

Nos cemitérios verticais, os corpos permanecem em compartimentos construídos especificamente para essa finalidade. A decomposição continua ocorrendo, mas o empreendimento precisa dispor de soluções técnicas para impedir o vazamento de líquidos e controlar a liberação de gases.

O necrochorume, líquido produzido durante a decomposição, é uma das principais preocupações ambientais relacionadas à atividade funerária. Quando não existem condições adequadas de contenção, ele pode representar risco de contaminação do solo e da água.

A Resolução nº 335, de 2003, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), estabelece critérios para o licenciamento ambiental de cemitérios e determina exigências específicas para as estruturas verticais. Entre elas estão a adoção de materiais que impeçam a passagem de gases para áreas de circulação e a implementação de sistemas adequados de tratamento dos gases gerados pela decomposição.

A norma também exige características construtivas que impeçam o vazamento dos líquidos produzidos no interior dos lóculos. Isso significa que a verticalização não elimina os impactos ambientais do sepultamento, mas modifica a forma como esses impactos precisam ser controlados.

Uma nova organização funerária

A mudança também interfere na maneira como as famílias utilizam e visitam os espaços funerários.

Nos cemitérios horizontais, é comum que os jazigos tenham características próprias, com lápides, fotografias, esculturas, pequenos jardins e construções familiares. Em edifícios funerários, a identificação dos falecidos costuma ocorrer em placas instaladas nos compartimentos, enquanto flores e homenagens podem ser organizadas em áreas destinadas a essa finalidade.

Essa diferença modifica a paisagem dos cemitérios e a experiência de visitação, embora não represente necessariamente o abandono das tradições religiosas ou familiares.

Os empreendimentos verticais podem contar com capelas, salas de velório, ambientes de oração e espaços de convivência. A configuração varia conforme o projeto, o porte do estabelecimento e os serviços oferecidos.

A verticalização também pode modificar a relação econômica das famílias com os jazigos. A aquisição ou concessão de um lóculo, as taxas de manutenção, os serviços de sepultamento e as regras para exumação dependem do modelo de administração, que pode ser público ou privado.

Por isso, não é possível afirmar que o sepultamento vertical seja necessariamente mais barato do que o convencional. A comparação depende das tarifas municipais, dos contratos privados e dos serviços incluídos em cada modalidade.

Verticalização não é cremação

Embora frequentemente apareçam na mesma discussão sobre o futuro dos cemitérios, verticalização e cremação são procedimentos diferentes.

Nos cemitérios verticais, o corpo continua sendo sepultado e passa pelo processo natural de decomposição. A diferença está na estrutura utilizada para recebê-lo.

Na cremação, o corpo é submetido a um processo térmico, e os restos resultantes são posteriormente acondicionados em urnas, que podem permanecer com as famílias ou ser depositadas em espaços apropriados.

Em Maringá, por exemplo, a Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória possui, há décadas, uma estrutura destinada ao acondicionamento de restos mortais e urnas funerárias. O espaço, localizado no interior da construção, ilustra outra modalidade de utilização vertical de ambientes destinados à memória dos mortos, mas não deve ser confundido com um cemitério de sepultamento de corpos.

Entre a tradição e a tecnologia

A adoção de estruturas verticais não significa que os cemitérios horizontais estejam próximos de desaparecer. Os dois modelos convivem e atendem a diferentes necessidades, preferências e condições econômicas.

O próprio histórico de Curitiba demonstra essa coexistência: apesar de contar com um cemitério vertical desde 1990, a cidade mantém cemitérios convencionais, públicos e privados.

Também não existe, nas informações nacionais disponíveis para esta reportagem, uma série histórica consolidada que permita quantificar o ritmo de expansão dos cemitérios verticais no Brasil. Os projetos identificados no Paraná demonstram a utilização e a incorporação desse tipo de solução, mas não são suficientes, isoladamente, para estabelecer uma taxa nacional de crescimento.

O que se observa é uma diversificação das estruturas funerárias. Edifícios com milhares de lóculos, gavetários instalados em cemitérios tradicionais, ossuários e espaços para urnas de cinzas passam a integrar um setor que, durante muito tempo, esteve associado quase exclusivamente aos túmulos construídos sobre a terra.

Mais do que alterar a arquitetura dos cemitérios, essas modalidades introduzem novas exigências ambientais, formas de administração e possibilidades de preservação da memória familiar. No Paraná, a experiência consolidada de Curitiba e os projetos identificados em municípios do interior mostram que o sepultamento vertical já faz parte das alternativas consideradas para a organização dos espaços funerários.

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