Aprovação garantida?
01/09/2026 17:45
Sandro Alex resolveu uma das maiores angústias de quem entra numa licenciatura: o emprego. O candidato do PSD ao Governo do Paraná anunciou que pretende garantir aos alunos das licenciaturas das universidades estaduais ingresso no Quadro Próprio do Magistério (QPM), “nos mesmos moldes de um concurso público”. Pela proposta divulgada pela própria campanha, a garantia começaria já no vestibular.
A promessa caiu como uma bomba entre professores nas redes sociais. E há uma ironia difícil de ignorar: Sandro Alex se apresenta como candidato da continuidade da gestão Ratinho Junior, justamente uma administração que levou o Paraná ao primeiro concurso para professores em dez anos. O próprio governo reconheceu esse intervalo ao anunciar o certame de 2023, inicialmente autorizado com cerca de 1,2 mil vagas.
Enquanto o candidato promete uma espécie de emprego garantido a quem ainda vai entrar na universidade, o Estado continua recorrendo maciçamente ao PSS para manter professores em sala de aula. Tanto que, em pleno 2026, a Secretaria da Educação abriu novamente processo seletivo para contratação temporária de professores e pedagogos. São profissionais que podem acumular anos de experiência na rede sem estabilidade e sem a carreira reservada aos integrantes do QPM.
A comparação fica ainda mais desconfortável quando se olha para quem finalmente conseguiu passar em concurso. O professor recém-nomeado não recebe estabilidade automática. Durante o estágio probatório, precisa enfrentar Avaliação Especial de Desempenho, formação obrigatória, frequência de 100% nos Cursos de Gestão da Carreira, avaliação formativa, portfólio, autoavaliação e até gravação da própria prática em sala de aula. O descumprimento das exigências pode comprometer a aprovação no probatório e a estabilização no cargo.
É aí que a promessa começa a produzir uma pergunta bastante incômoda: se o Estado exige concurso, estágio probatório, cursos e avaliação da prática de quem já é formado e aprovado, por qual lógica poderia garantir vaga no QPM a alguém a partir do vestibular?
Há ainda um problema anterior à política: o jurídico. A Constituição estabelece, como regra para ingresso em cargo ou emprego público, aprovação prévia em concurso público. Portanto, “aprovação garantida” não depende simplesmente da vontade do próximo governador. A campanha precisará explicar qual será o desenho jurídico dessa contratação e como pretende conciliá-lo com a exigência constitucional.
No esforço de vender uma solução para a falta de interesse pelas licenciaturas, Sandro Alex acabou abrindo uma discussão muito maior sobre a política de pessoal do próprio grupo que pretende suceder. Antes de garantir emprego público para quem ainda vai começar a estudar para ser professor, talvez seja necessário explicar o que acontecerá com quem já é professor, já está em sala de aula e continua esperando uma vaga efetiva.