Cadê o diploma?

15/08/2026 10:49

Virou quase uma febre. Nas redes sociais, todo mundo parece ser especialista em alguma coisa. Especialista sem especialização, consultor sem trajetória, coach de praticamente qualquer assunto e, vez ou outra, formado em curso cujo diploma ninguém consegue encontrar. A facilidade de construir autoridade no ambiente digital ajudou a vulgarizar qualificações que, no mundo real, exigem estudo, formação e comprovação. Pois a Justiça Eleitoral acaba de dar um recado interessante: quando a qualificação inventada entra no processo eleitoral, a brincadeira pode custar o mandato. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou, por unanimidade, o registro e o mandato de Moaci do Licuri (PT), eleito vereador em Pé de Serra, na Bahia, em 2024. O motivo foi a apresentação de um diploma escolar falso no registro da candidatura. Para o relator, ministro André Mendonça, o uso do documento falso atingiu a lisura do pleito e induziu a Justiça Eleitoral a erro. O detalhe torna o caso ainda mais curioso: o candidato tinha CNH, documento que poderia ser utilizado para demonstrar a condição exigida para o registro. Ainda assim, apresentou inicialmente o diploma falsificado. Para o TSE, corrigir posteriormente a documentação não apagou a irregularidade anterior. A decisão levanta uma pergunta provocadora: e se a moda pega? Porque currículo enfeitado não é exatamente novidade na política — nem no Brasil nem fora dele. Nos Estados Unidos, o então deputado George Santos, filho de brasileiros, transformou-se em caso internacional depois que uma série de informações de seu currículo foi desmentida. Ele admitiu ter mentido sobre partes de sua formação acadêmica e experiência profissional e, posteriormente, acabou expulso da Câmara dos Representantes em meio a um conjunto muito mais amplo de acusações. Por aqui, também não faltam casos de agentes públicos questionados sobre cursos, títulos e formações anunciados publicamente, além daqueles que são provocados a apresentar diplomas e preferem deixar a pergunta sem resposta. Talvez esteja aí uma discussão que ultrapasse as urnas. Até onde alguém pode se apropriar de uma qualificação que não possui para conquistar credibilidade, clientes, votos ou influência? Uma coisa é opinião. Outra é apresentar-se como detentor de uma formação inexistente — e documento falso, evidentemente, acrescenta uma dimensão jurídica muito mais grave. Nas redes sociais, acostumamo-nos a uma espécie de inflação de títulos: todo mundo é especialista, estrategista, mentor ou autoridade. O precedente eleitoral não transforma automaticamente essa prática em ilícito na vida cotidiana, porque cada profissão e cada situação estão submetidas a regras diferentes. Mas deixa um recado importante: título não é adereço de biografia. Na Justiça Eleitoral, pelo menos, parece que chegou a hora de levar currículo a sério. E se essa moda se espalhar para o restante da vida pública, talvez muita gente precise começar procurando onde guardou o diploma.