Quando a burocracia tem pressa
14/08/2026 16:28
Quem já precisou resolver qualquer pendência envolvendo patrimônio público sabe que uma coisa normalmente não combina com burocracia: pressa. Mas, aparentemente, há exceções.
Documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que, em julho de 2022, durante o governo Jair Bolsonaro, a Secretaria do Patrimônio da União abriu e concluiu no mesmo dia um procedimento especial necessário à transferência dos direitos de ocupação de um imóvel em Angra dos Reis. A área acabaria no centro de uma disputa envolvendo o jogador Richarlison e a WT Administração de Imóveis e Bens, empresa ligada ao advogado Willer Tomaz.
O detalhe que desperta atenção está justamente no relógio. Um requerimento anterior relacionado à área, apresentado em setembro de 2021, permaneceu sem conclusão. Outro processo, iniciado em 2022, andou em cerca de dois meses. E, no meio dele, surgiu um “impedimento no sistema”. A solução? Um procedimento especial aberto e encerrado em 11 de julho de 2022, permitindo a emissão da certidão necessária à transferência naquele mesmo dia.
Willer Tomaz tem ligação com Flávio Bolsonaro, que já apareceu como testemunha na disputa judicial envolvendo o imóvel. Agora, o deputado Rogério Correia levou os documentos à Polícia Federal e pediu investigação sobre eventual favorecimento e sobre as circunstâncias da tramitação. Os documentos conhecidos até agora não provam que Flávio tenha interferido pessoalmente no procedimento. É justamente isso que o parlamentar quer que seja apurado.
E talvez seja essa a parte mais curiosa da história.
Enquanto milhões de brasileiros conhecem a expressão “aguardando análise”, naquele 11 de julho a máquina pública encontrou uma maneira de superar um problema no sistema, abrir um procedimento, processá-lo e concluí-lo antes de terminar o dia.
Quando quer, a burocracia brasileira também sabe correr. A questão agora é descobrir por que correu tanto.