Quando o marketing exagera

06/08/2026 17:17

A tentativa de aproximar a política da linguagem da internet voltou a render um episódio curioso na pré-campanha paranaense. Em publicação nas redes sociais, Sandro Alex chamou Rafael Greca de “meu casca de bala” e “o six do meu seven”, numa evidente tentativa de dialogar com o universo dos memes. O problema é que a semiótica dessas expressões talvez produza o efeito contrário ao desejado. “Six do meu seven” nasceu justamente da ausência de significado. O meme viralizou porque não faz sentido algum. Sua graça está no nonsense. Quando transportado para um discurso político, porém, o vazio semântico deixa de ser humor e passa a transmitir exatamente isso: ausência de conteúdo. Já “casca de bala” carrega uma contradição curiosa. No sentido original, a expressão remete ao estojo metálico que sobra após o disparo de uma arma de fogo — aquilo que resta depois que o projétil já foi embora. No uso popular, transformou-se em sinônimo de grande amizade. Ainda assim, a origem da palavra continua sugerindo algo residual, descartável, um símbolo cuja carga semântica dificilmente combina com a ideia de lealdade política. Há outro aspecto que chama atenção. Até poucos dias atrás, Greca resistia publicamente à possibilidade de compor a chapa de Sandro Alex e defendia sua própria candidatura ao governo. Agora, os dois aparecem nas redes como amigos inseparáveis, trocando bordões típicos da cultura digital. A mudança é tão abrupta que exige do eleitor uma suspensão da memória recente. É evidente que campanhas precisam modernizar sua comunicação e conversar com públicos mais jovens. O erro está em acreditar que basta reproduzir memes para parecer contemporâneo. Linguagem não é fantasia que se veste conforme a ocasião. Quando o marketing tenta falar como a internet sem compreender os códigos que tornaram aquela linguagem espontânea, o resultado costuma ser artificial. Na política, autenticidade continua valendo mais do que viralização. E existe uma linha tênue entre parecer próximo do eleitor e parecer apenas um adulto tentando desesperadamente falar como adolescente. Em campanhas eleitorais, cruzar essa linha pode custar mais do que alguns comentários bem-humorados nas redes sociais.