Nova narrativa
22/07/2026 15:58
Em entrevista recente, o governador Ratinho Junior inaugurou uma nova justificativa para vender a Celepar. Se até pouco tempo a privatização era apresentada como sinônimo de modernização e eficiência, agora o argumento mudou: a empresa precisaria ser vendida para não “quebrar” e não “virar um Correio”.
A mudança de discurso não parece aleatória. Ela ocorre justamente quando a Celepar atravessa seu momento mais delicado, cercada por questionamentos sobre contratos milionários, pela suspensão da licitação do programa Olho Vivo pelo Tribunal de Contas e por investigações que colocaram a estatal no centro do debate político paranaense.
A nova narrativa, entretanto, abre uma contradição difícil de ignorar. Se a Celepar está à beira da inviabilidade, como sustenta agora o governo, por que ela continua sendo a principal plataforma para contratos que movimentam centenas de milhões de reais? Se a empresa perdeu valor, por que existe tamanho interesse em seu controle? E se o problema é estrutural, por que ele só passou a ser utilizado como argumento para a privatização justamente quando a estratégia da “modernização” deixou de convencer parte da opinião pública?
Há outro detalhe incontornável. Todos os fatos que hoje colocam a Celepar sob pressão ocorreram durante os governos Ratinho Junior. As decisões sobre contratos, os modelos de contratação, a condução da estatal e a própria política de tecnologia são responsabilidades da atual administração. Ou seja, o diagnóstico apresentado pelo governador não recai sobre uma herança distante, mas sobre uma empresa conduzida por sua própria equipe desde 2019.
No fim, resta a impressão de que o governo deixou de vender a ideia de uma Celepar promissora para tentar convencer os paranaenses de que ela é um problema. A pergunta permanece a mesma: se a empresa é tão estratégica a ponto de concentrar dados, sistemas e contratos bilionários do Estado, a quem interessa convencer a população de que a única saída é vendê-la?