A conta da sucessão
18/07/2026 10:29
Ricardo Barros fez uma leitura que muitos preferem evitar. Ao afirmar que a escolha de Sandro Alex produziu instabilidade no processo sucessório, o presidente estadual do PP não rompeu com Ratinho Junior nem falou como integrante formal da ala governista. Falou como aliado histórico do governador e como uma das lideranças mais experientes da política paranaense.
A distinção é importante. Barros mantém uma relação política antiga com Ratinho Junior, mas comanda no Paraná um partido que integra uma federação com o União Brasil e que preserva interesses próprios na disputa de 2026. Isso significa que sua avaliação não pode ser confundida com uma manifestação oficial do Palácio Iguaçu.
O histórico recente torna sua fala ainda mais significativa. Sérgio Moro ainda pertencia ao União Brasil quando buscou construir uma candidatura ao governo do Paraná. A pretensão encontrou forte resistência no PP, inclusive de Ricardo Barros. Como União Brasil e PP já estavam vinculados politicamente pela federação, Moro percebeu que dificilmente teria espaço para concorrer ao Palácio Iguaçu por aquela estrutura.
Foi nesse contexto que o senador deixou o União Brasil e se transferiu para o PL, partido pelo qual passou a organizar sua candidatura. A mudança de legenda não foi um detalhe burocrático. Foi consequência direta da falta de viabilidade política enfrentada por Moro dentro da federação.
Esse antecedente afasta qualquer interpretação de que Ricardo Barros esteja agora trabalhando para favorecer o senador. Ao contrário: ele esteve entre os responsáveis por impedir que Moro fosse o candidato da própria federação. Quando admite que o ex-juiz deve chegar ao segundo turno e que Sandro Alex ainda precisa demonstrar viabilidade, Barros não está fazendo propaganda de um adversário. Está reconhecendo um cenário eleitoral que se impôs apesar de sua resistência anterior.
O dirigente também lembrou que a federação reúne dez dos 30 deputados federais paranaenses, cinco deputados estaduais, importantes prefeituras e cerca de 20% do tempo de televisão. É força suficiente para influenciar decisivamente a eleição e, justamente por isso, sua definição não será entregue automaticamente ao candidato escolhido pelo governador.
Aqui está o erro político de Ratinho Junior. A indicação de Sandro Alex deveria organizar a sucessão, reunir os aliados e oferecer um polo competitivo contra Moro. Em vez disso, criou dúvidas até entre personagens que participaram da construção do atual governo.
Ricardo Barros tem razão. Popularidade administrativa não é herança transmitida por vontade do governante. Para vencer uma eleição, o sucessor precisa ter força própria, capacidade de agregar e viabilidade diante do eleitor. Quando até um aliado histórico reconhece que a escolha provocou instabilidade, o problema não está no mensageiro. Está na escolha.