Herdeira política
24/06/2026 16:48
Na política, há sobrenomes que funcionam como patrimônio eleitoral. E há também aqueles que, diante das adversidades, passam a ser tratados como um verdadeiro plano de contingência.
Ao admitir a possibilidade de lançar a própria esposa, Fernanda Dallagnol, ao Senado caso tenha sua candidatura barrada pela Justiça Eleitoral, Deltan Dallagnol escancarou uma estratégia que se tornou cada vez mais comum no país: a transferência de capital político dentro de casa.
O ex-procurador afirma que a eventual candidatura serviria para demonstrar que “o sistema não vai vencer”. Mas, no fundo, a declaração revela outra realidade: a de que Deltan acredita que seus votos não pertencem apenas a ele, mas a um projeto político que poderia ser herdado por pessoas de sua mais absoluta confiança.
A menção ao vice-prefeito de Curitiba, Paulo Martins, como alternativa, mostra que o grupo político já trabalha com cenários de contingência para 2026. Afinal, em política, ninguém fala em plano B sem antes considerar seriamente a possibilidade de o plano A fracassar.
O curioso é que a hipótese da candidatura de Fernanda surge justamente quando o discurso predominante na direita brasileira é o combate às oligarquias políticas e aos sobrenomes que se perpetuam no poder. Quando a solução encontrada para uma eventual inelegibilidade é recorrer à própria família, o discurso e a prática acabam se encontrando em lados opostos da mesa.
Por enquanto, tudo não passa de uma possibilidade, como o próprio Deltan reconhece. Mas o simples fato de ela ter sido verbalizada já movimenta o tabuleiro político paranaense e adiciona mais um elemento de incerteza à disputa pelo Senado, que promete ser uma das mais concorridas da história recente do Paraná.
Porque, em política, às vezes uma candidatura não nasce da vontade de quem vai disputar a eleição, mas da necessidade de quem não quer sair dela.