De “tchutchuca” a fiscal implacável
18/06/2026 17:02
Na política, poucas coisas são tão rápidas quanto uma mudança de discurso. Em Cascavel, uma publicação que circula nas redes sociais ironiza justamente esse fenômeno: a transformação de parlamentares que, enquanto integravam a base de sustentação do Executivo, mantinham silêncio diante dos problemas da cidade, mas que, após o rompimento político, assumem repentinamente o papel de fiscais implacáveis da administração pública.
O texto, carregado de sarcasmo, contrapõe duas figuras simbólicas: a “tchutchuca” e o “cachorrão”. A primeira representa o vereador dócil, que evita confrontos e ignora falhas da gestão quando há alinhamento político. A segunda surge após o fim da aliança, quando o mesmo parlamentar passa a denunciar buracos, cobrar obras e apontar problemas que antes pareciam invisíveis.
A crítica vai além das disputas locais. O autor questiona o modelo de atuação política impulsionado pelas redes sociais, em que vídeos de denúncias rendem mais engajamento do que a análise de projetos complexos, discussões orçamentárias ou debates sobre planejamento urbano. A lógica do algoritmo, segundo a publicação, estaria substituindo a fiscalização técnica pelo espetáculo digital.
Nesse contexto, problemas reais da população, como buracos nas ruas, filas na saúde ou falhas na infraestrutura, tornam-se cenário para a produção de conteúdo político. A denúncia pública deixa de ser apenas um instrumento de fiscalização e passa a funcionar também como ferramenta de construção de imagem.
A provocação encontra eco em um debate cada vez mais presente nas câmaras municipais brasileiras: até que ponto a atuação fiscalizadora decorre de convicção e compromisso com o interesse público, e em que medida ela é influenciada por conveniências políticas e pela busca por visibilidade nas redes?
A publicação não cita nomes diretamente, mas deixa claro o alvo da crítica ao mencionar o rompimento entre grupos políticos que até pouco tempo caminhavam juntos. O recado é simples e direto: a coerência continua sendo um dos bens mais escassos da política contemporânea.