Sobre bonés e pré-candidatos

17/06/2026 15:47

A política brasileira possui uma habilidade impressionante: transformar situações que deveriam ser simples em grandes fontes de desgaste. Em São José dos Pinhais, uma fotografia registrada dentro das dependências da Câmara Municipal abriu espaço para uma série de questionamentos. O motivo não foi exatamente a reunião em si, mas o contexto: ambiente institucional, participantes utilizando bonés ligados a um projeto político e referências públicas a pré-candidatos. O caso ganhou repercussão porque toca em um tema sensível para qualquer administração pública: onde termina a atividade institucional e onde começa a articulação político-eleitoral? Até o momento, não há qualquer conclusão sobre irregularidades. Mas as perguntas levantadas são difíceis de ignorar. Se havia servidores, assessores ou estagiários presentes, em que condição participavam? O encontro ocorreu durante expediente? Qual era exatamente sua finalidade? Houve uso da estrutura pública para uma atividade de natureza político-partidária? São questões que merecem respostas objetivas justamente porque envolvem um dos princípios mais importantes da administração pública: a impessoalidade. Na prática, a situação revela um problema recorrente. Muitos agentes públicos parecem esquecer que não basta agir corretamente; também é necessário evitar circunstâncias que gerem dúvidas razoáveis perante a população. Quando símbolos, discursos e projetos eleitorais passam a dividir espaço com estruturas públicas, o debate deixa de ser apenas jurídico. Torna-se político e institucional. E na política, às vezes o desgaste não nasce daquilo que foi feito, mas da incapacidade de explicar claramente por que foi feito. Se tudo ocorreu dentro da legalidade, os esclarecimentos provavelmente encerrarão o assunto. Mas, até lá, permanece uma máxima válida para qualquer gestor público: quanto menor a distância entre a aparência e a transparência, menor a chance de uma fotografia virar problema.