Bakri faz fala polêmica
08/06/2026 16:58
A fala do líder do governo, Hussein Bakri, sobre a crise da merenda escolar talvez tenha produzido um efeito contrário ao pretendido. Ao afirmar da tribuna da Assembleia Legislativa que “diretor que não tem capacidade não merece continuar”, o deputado acabou reacendendo uma discussão que já vinha provocando desconforto nos corredores da educação paranaense.
A declaração ocorreu justamente quando a oposição questionava o afastamento da direção do Colégio Estadual Roberto Langer, em Curitiba, após a divulgação de denúncias sobre a falta de alimentos na unidade. Para Bakri, o problema seria resultado de falhas na gestão da escola. A frase foi direta, sem rodeios.
Ocorre que ela chega poucos dias depois de a Gazeta do Paraná revelar a existência de um áudio atribuído a um representante da estrutura da Secretaria de Estado da Educação em que diretores recebem um recado igualmente direto: “ou renunciem ou enfrentem o processo”.
Embora os contextos sejam distintos, a coincidência chama a atenção. De um lado, uma fala que associa permanência no cargo à capacidade administrativa. De outro, um discurso que coloca a renúncia como alternativa à abertura de procedimentos administrativos. Em ambos os casos, a mensagem transmitida aos gestores escolares é difícil de ignorar.
E a história pode ser maior do que aparenta. A Gazeta do Paraná está ouvindo diretores e ex-diretores de diferentes regiões do Estado que relatam ter enfrentado situações semelhantes. Os depoimentos apontam para um padrão que vai além de um caso isolado: cobranças por índices que não teriam sido atingidos, exigência de realização de ações e projetos em poucos meses de gestão, utilização de metas herdadas de administrações anteriores e, em alguns relatos, a busca insistente por justificativas que permitissem a abertura de processos administrativos ou o afastamento de gestores.
Há casos em que os próprios diretores afirmam não ter recebido uma explicação objetiva sobre as razões das pressões sofridas. Outros relatam que, mesmo apresentando justificativas e demonstrando dificuldades estruturais da escola, continuaram sendo alvo de cobranças e advertências. Em comum, aparece a percepção de que a decisão pelo afastamento já estaria previamente desenhada e que o processo serviria apenas para formalizar o resultado.
A questão central não é sequer discutir se um diretor agiu corretamente ou não. Para isso existem mecanismos de apuração, direito à defesa e procedimentos previstos em lei. O debate está em saber qual ambiente institucional está sendo construído para quem ocupa cargos de direção nas escolas estaduais.
Quando denúncias sobre problemas estruturais acabam sendo acompanhadas por afastamentos, pedidos de renúncia ou declarações públicas sobre incapacidade, cria-se inevitavelmente uma sensação de insegurança entre os gestores. Afinal, diante de uma crise, qual deve ser a atitude do diretor? Expor o problema ou silenciá-lo?
A resposta interessa não apenas aos diretores, mas também aos professores, estudantes e famílias. Porque, em uma rede com mais de duas mil escolas, problemas podem acontecer. O que não pode acontecer é que quem aponta o problema passe a acreditar que corre mais riscos do que quem o causou.
Nas próximas semanas, a Gazeta do Paraná publicará uma série de reportagens com relatos de gestores que afirmam ter sido pressionados, ameaçados ou constrangidos durante o exercício de suas funções. Se as histórias se confirmarem, a discussão deixará de ser sobre um diretor específico ou uma escola específica. Passará a ser sobre a cultura de gestão que está sendo construída dentro da rede estadual de ensino.