Salário insuficiente?

06/06/2026 10:56

A declaração do corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell, de que uma remuneração de até R$ 141 mil mensais estaria “abaixo do adequado” reacendeu um debate que costuma provocar desconforto dentro e fora do Judiciário. Ao justificar que o valor não seria compatível com o volume de processos analisados ao longo da carreira, o magistrado trouxe à tona uma discussão legítima sobre a valorização da magistratura — mas também inevitavelmente distante da realidade da maioria dos brasileiros. Os números divulgados pelo Portal da Transparência do STJ mostram que Campbell recebeu cerca de R$ 141 mil em abril, valor composto por vencimentos, indenizações e vantagens previstas na legislação. Embora o ministro tenha destacado a responsabilidade do cargo e a produtividade dos magistrados brasileiros, a fala repercutiu em um país onde milhões de trabalhadores convivem com salários que mal acompanham a inflação. O episódio evidencia um problema recorrente: a crescente desconexão entre os debates salariais das altas carreiras públicas e a percepção da população. Não se trata apenas de quanto se ganha, mas de como determinadas declarações são recebidas por quem enfrenta filas em hospitais, escolas com carências estruturais e serviços públicos frequentemente sobrecarregados. Mais do que uma discussão sobre remuneração, a fala do corregedor expõe um desafio de comunicação institucional. Em um cenário de cobrança por austeridade e eficiência, defender que R$ 141 mil mensais estão abaixo do ideal pode até encontrar respaldo em argumentos corporativos, mas dificilmente encontrará compreensão fora dos tribunais. Afinal, para a maioria dos brasileiros, o problema não é ganhar pouco para a função que exercem — é simplesmente ganhar pouco para viver.