Prefeito entende prefeito
04/06/2026 12:12
Há algumas semanas, os prefeitos do Paraná descobriram que o relógio corre mais rápido do que imaginavam.
Quando o secretário da Fazenda, Norberto Ortigara, admitiu na Assembleia Legislativa que nem todas as obras e convênios anunciados pelo Estado conseguirão cumprir os prazos exigidos pela legislação eleitoral, o efeito foi imediato. Prefeitos passaram a correr contra o tempo para garantir medições, liberações e empenhos antes da data-limite de 4 de julho.
O problema não é apenas financeiro. É político.
A ansiedade dos prefeitos abriu uma fissura na relação entre muitos municípios e o grupo do governador Ratinho Junior. Afinal, ninguém gosta de voltar para casa explicando à população por que uma obra anunciada acabou ficando pelo caminho.
Foi nesse ambiente que surgiu a polêmica fala do deputado Luiz Claudio Romanelli, interpretada por muitos como um recado de que a continuidade dos projetos dependeria da permanência do grupo governista no poder.
Enquanto esse discurso gerava desconforto entre prefeitos preocupados com obras ainda no papel, Rafael Greca escolheu outro caminho.
Na entrevista à Rádio Educadora, de Dois Vizinhos, o ex-prefeito de Curitiba insistiu em uma tecla que vem repetindo desde o início da pré-campanha: “Eu entendo os prefeitos porque fui prefeito três vezes.”
Não parece uma frase extraordinária. Mas, neste momento, ela tem endereço certo.
Greca tenta ocupar justamente o espaço deixado pela insegurança criada nos municípios. Em vez de falar para a máquina do Estado, fala para quem depende dela. Em vez de cobrar fidelidade política, oferece compreensão administrativa.
E há um detalhe que chama atenção. Ao elogiar realizações do governo Ratinho Junior e defender que boas iniciativas sejam mantidas — como costuma fazer ao citar grandes obras estruturantes — Greca também faz questão de afirmar que continuidade não significa repetição. A mensagem é clara: aproveitar o que deu certo sem governar como uma cópia do atual governo.
Talvez o ponto mais revelador da entrevista seja outro.
Enquanto Ratinho Junior segue alimentando a narrativa de que Greca poderia compor como vice de Sandro Alex, Greca continua se comportando exatamente como alguém que disputa o cargo de governador. Viaja pelo interior, conversa com prefeitos, apresenta propostas e fala na condição de quem pretende liderar o Estado.
Na política, discursos importam. Mas movimentos importam mais.
E, por enquanto, os movimentos de Greca são de candidato ao Palácio Iguaçu, não de candidato à vice-governadoria. Afinal, quem está percorrendo o Paraná para dizer que entende as dores dos prefeitos dificilmente parece disposto a ocupar o banco do passageiro.