A invasão da tela
29/05/2026 17:27
Há quem diga que a política ocupou todos os espaços da vida pública. Mas, convenhamos, ainda não tínhamos chegado ao ponto de ela invadir os outdoors de uma cidade estrangeira.
Cidade do Leste amanheceu nesta sexta-feira diante de uma cena que parece saída de um roteiro escrito por alguém que misturou campanha eleitoral, rivalidade futebolística e um curso intensivo de invasão hacker. Por cerca de uma hora, telões publicitários exibiram uma montagem colocando Jair Bolsonaro no centro de provocações dirigidas ao Paraguai, incluindo uma suposta agressão ao jogador Gustavo Gómez.
O resultado foi previsível: confusão, revolta e uma correria para descobrir quem apertou o botão.
As empresas responsáveis pelas telas garantem que não apertaram. Falam em “manipulação não autorizada”, expressão elegante para aquilo que, em português claro, costuma ser chamado de invasão. Agora prometem colaborar com as autoridades para identificar os responsáveis.
O episódio tem algo de simbólico. Durante anos, discutiu-se a invasão das redes sociais por campanhas políticas, robôs, desinformação e disputas ideológicas. Agora a guerra digital parece ter resolvido sair da internet e ocupar o mobiliário urbano.
A pergunta inevitável é outra: se alguém consegue transformar painéis eletrônicos de uma das cidades mais movimentadas da fronteira em um palanque improvisado, o problema talvez seja maior do que o conteúdo exibido.
Porque hoje foi uma montagem política.
Amanhã pode ser qualquer coisa.
E, quando até os outdoors passam a precisar de senha reforçada, talvez seja hora de admitir que a fronteira mais vulnerável da América do Sul não é a que separa Brasil e Paraguai. É a que separa um sistema conectado da próxima invasão.