Promessa no asfalto

28/05/2026 16:54

A fala do vereador Júlio Kuller, em Ponta Grossa, expôs um problema que começa a tirar o sono de prefeitos, deputados e lideranças municipais em todo o Paraná: a distância entre o anúncio e o dinheiro de verdade. Ao comentar as declarações do secretário da Fazenda, Norberto Ortigara, que admitiu na Assembleia Legislativa que o governo Ratinho Junior tem mais projetos do que capacidade financeira para executar, Kuller colocou o dedo numa ferida que o Palácio Iguaçu tenta evitar: o risco de obras prometidas virarem apenas material de campanha. Segundo o vereador, dos R$ 100 milhões anunciados para pavimentação em Ponta Grossa, apenas cerca de 30% teriam sido efetivamente liberados até agora. O restante virou interrogação depois da fala de Ortigara sobre o orçamento limitado e sobre a possibilidade de medições não realizadas até julho ficarem para o próximo governo. A crítica é especialmente desconfortável porque parte justamente de uma base política que orbitou o próprio grupo governista nos últimos anos. E ela atinge em cheio um dos principais ativos políticos de Ratinho Junior: a narrativa de governo municipalista que percorre o estado distribuindo anúncios, placas, convênios e solenidades milionárias. O problema é que anúncio não asfalta rua. E, nos bastidores, cresce o receio de que muitos municípios tenham recebido promessas numa velocidade maior do que a capacidade real de pagamento do Estado. A fala de Kuller também resgata uma discussão que o governo prefere tratar em voz baixa: o uso dos recursos extraordinários obtidos após privatizações e vendas de ativos estatais. Porque, como o próprio vereador insinuou, houve um momento em que o Paraná parecia viver uma era de abundância, com anúncios pulverizados pelos 399 municípios. Agora, porém, a conta começa a aparecer junto com o discurso de contenção. No fim, a declaração do vereador de Ponta Grossa revela algo politicamente perigoso para o Palácio Iguaçu: quando aliados começam a questionar publicamente se o dinheiro prometido vai chegar, o problema deixa de ser oposição. Passa a ser credibilidade.