“Nem o pai, nem o filho, nem o Espírito Santo”

28/05/2026 16:37

Tem gente no governo que trata televisão pública como se fosse grupo de condomínio. A denúncia publicada pelo jornalista Valdir Cruz sobre o ambiente interno da TV Paraná Turismo caiu como uma bomba nos bastidores do Centro Cívico. E não apenas pelo conteúdo das acusações envolvendo assédio moral, uso da estrutura pública para fins pessoais e clima de perseguição dentro da emissora estatal. O que mais chamou atenção foi o silêncio. Silêncio de uma gestão que adora vender profissionalismo, modernização e eficiência na comunicação institucional, mas que, diante de relatos graves envolvendo uma TV pública bancada pelo contribuinte, parece optar pela velha estratégia do “deixa quieto para não crescer”. As acusações são pesadas. Relatos de medo, ameaças de exoneração, paralisação do ambiente de trabalho por panelinhas e até utilização de estrutura de maquiagem e produção para interesses particulares. Tudo isso dentro de uma emissora pública que deveria servir à informação, à cultura e ao interesse coletivo. E há um detalhe simbólico no relato que circulou nos bastidores: a frase atribuída à diretora, segundo a qual “aqui não manda o pai, o filho e o Espírito Santo. Só eu”. A frase não expõe apenas arrogância. Expõe uma cultura política antiga, ainda muito viva em setores do poder paranaense: a lógica de pequenos feudos administrativos onde cargos públicos viram extensão da personalidade de quem ocupa a cadeira. O problema é que TV pública não é propriedade privada. Cargo comissionado não é licença para humilhar servidor. E estrutura estatal não existe para alimentar vaidade de chefia. Agora, diante da repercussão das denúncias, o Palácio Iguaçu entra numa encruzilhada delicada. Ignorar o caso pode reforçar a impressão de que a comunicação do governo funciona em dois modos: marketing para fora e tensão permanente para dentro. Porque, no fim, não pega bem um governo que vende harmonia institucional assistir calado a uma emissora pública virar assunto mais pelos bastidores do que pela programação.