Excesso de trabalho seletivo
27/05/2026 16:43
A falência da Construtora Triunfo trouxe de volta um daqueles episódios que a Lava Jato preferia deixar enterrado: o momento em que Sergio Moro simplesmente saiu de cena em um caso que envolvia a família da própria esposa.
A publicação que voltou a circular nas redes resgata um fato conhecido, mas frequentemente esquecido no debate político paranaense. Em 2018, quando as investigações atingiram Luiz Fernando Wolff Carvalho, ligado à Triunfo Econorte e primo de Rosângela Moro, Sergio Moro deixou o caso alegando “excesso de trabalho” e ausência de ligação com a Petrobras.
Tecnicamente, o então juiz poderia se declarar incompetente ou suspeito. Politicamente, porém, o gesto sempre carregou um peso difícil de apagar: Moro construiu a própria imagem pública justamente sobre a promessa de agir sem seletividade.
E é aí que mora a contradição que volta a assombrá-lo.
Durante anos, a Lava Jato transformou qualquer proximidade política, empresarial ou familiar em elemento de suspeita pública. Bastava um sobrenome, uma mensagem ou uma fotografia para que reputações fossem colocadas sob escrutínio nacional.
Quando o caso encostou no entorno familiar do próprio juiz símbolo da operação, porém, o rigor virou afastamento silencioso.
O episódio ganha nova dimensão agora porque Moro tenta consolidar um discurso de moralidade absoluta como pré-candidato ao Governo do Paraná. Só que a memória política não desaparece junto com os processos.
A falência da Triunfo acaba funcionando como uma espécie de fantasma tardio da Lava Jato: relembra relações, decisões e conveniências que ficaram desconfortavelmente fora do discurso oficial da operação.
E o problema para Moro talvez nem seja jurídico. Seja político.
Porque o eleitor pode até aceitar um juiz se declarar impedido em um caso sensível. O que fica mais difícil de explicar é por que a imparcialidade que virou régua para julgar o país inteiro pareceu funcionar de forma tão diferente quando o assunto chegou perto de casa.