Discurso de combate, prática conveniente

25/05/2026 17:30

Osmar Serraglio construiu a própria imagem pública na trincheira do combate à corrupção. Relator da CPI dos Correios, integrante de organização internacional contra práticas ilícitas, nome associado ao discurso da integridade. Tudo isso ajuda a dar peso ao que vem agora. Uma emenda Pix de quase R$ 6,5 milhões, destinada por ele, acabou pagando uma empresa da qual é sócio com os irmãos. O caminho do dinheiro é conhecido, documentado e, do ponto de vista formal, amparado. Há prestação de contas, há explicações, há versões. No papel, não há desvio comprovado. Mas há algo mais incômodo que a ilegalidade: a contradição. O mesmo político que construiu capital político denunciando esquemas passa a operar em um modelo que, embora legal, levanta dúvidas evidentes sobre conflito de interesses. Não é o tipo de situação que exige perícia contábil para causar desconforto. Basta olhar o fluxo. A defesa é técnica. O problema é político. Porque quem se apresenta como símbolo de combate à corrupção não pode se dar ao luxo de operar no limite daquilo que a lei permite, mas a ética questiona. O padrão, nesse caso, deveria ser mais alto, não mais flexível. No fim, o episódio não é apenas sobre uma emenda. É sobre coerência. E, em política, incoerência costuma custar mais do que qualquer investigação.