Impessoalidade seletiva

11/05/2026 17:10

Impessoalidade Seletiva A decisão do Tribunal de Contas do Estado sobre a promoção pessoal em Santa Isabel do Oeste produziu um efeito colateral interessante nos bastidores políticos do Paraná: muita gente deve ter corrido para revisar rede social oficial, programa de rádio “institucional” e contratos de publicidade pagos com dinheiro público. O motivo é simples. Se o TCE decidir transformar o entendimento aplicado ao caso em rotina de fiscalização, talvez descubra que a exceção, no Paraná, é justamente a impessoalidade. Há anos parte das administrações municipais opera numa espécie de confusão patrimonial moderna, em que prefeitura, imagem pessoal do prefeito e comunicação institucional passam a funcionar como uma coisa só. A obra é pública, o recurso é público, a estrutura é pública, mas a narrativa costuma ter dono, rosto, slogan, bordão e enquadramento cuidadosamente calculados. Alguns gestores sequer parecem governar municípios. Administram campanhas permanentes de si mesmos. O mais curioso é que o caso analisado pelo TCE nem trata de algo exatamente sofisticado. O tribunal fala de associação direta entre a figura do prefeito e ações da administração municipal, inclusive em rádio, redes sociais oficiais e publicidade custeada com recursos públicos. Ou seja, algo tão disseminado no cotidiano político brasileiro que muita gente talvez já nem enxergue mais como problema. E aí mora a parte mais delicada da decisão. Porque ela estabelece um precedente desconfortável. Se a régua aplicada em Santa Isabel do Oeste for usada com coerência no restante do estado, o TCE terá trabalho pelos próximos cem anos. Bastaria uma breve excursão pelas páginas oficiais de inúmeras prefeituras para encontrar gestores transformados em protagonistas absolutos da máquina pública: vídeos emocionais, slogans personalistas, obras narradas em primeira pessoa, entrevistas em rádio com tom eleitoral permanente, reels cinematográficos sobre troca de lâmpada e postagens em que o limite entre informação pública e construção de imagem simplesmente desapareceu faz tempo. No fundo, a decisão do tribunal acaba levantando uma pergunta constrangedora para a política paranaense: se houver uma fiscalização realmente uniforme sobre promoção pessoal com dinheiro público, sobra alguém administrando prefeitura — ou todos estavam apenas produzindo conteúdo?