Por que choram os ratinhos?

02/05/2026 10:20

A imagem é forte. Na plateia da inauguração da ponte de Guaratuba, olhos marejados, lenços em punho e uma legenda pronta: “lágrimas de alegria”. O governador Ratinho Junior tratou de enquadrar o momento como histórico, a realização de um sonho de meio século. Mas política raramente é só emoção. O choro, quando vem em público e com câmera ligada, costuma carregar mais de uma camada. E, no caso da ponte, o roteiro recente ajuda a entender por que a cena levanta sobrancelhas. Há pouco tempo, o próprio governo foi obrigado a adiar a inauguração em meio a questionamentos sobre aditivos contratuais. As denúncias não são periféricas. Elas tratam de custo, execução e transparência de uma das obras mais simbólicas da atual gestão. Não é detalhe técnico: é o coração político de um projeto vendido como legado. Ao mesmo tempo, o entorno do governador já não é o mesmo de alguns meses atrás. A base, antes sólida, começa a mostrar fissuras. Episódios acumulados, desgastes em série e uma sensação crescente de que o controle da narrativa escapou das mãos. A ponte, que deveria ser um ponto de chegada, passou a operar também como linha de defesa. É nesse contexto que a imagem ganha outro peso. Chorar pode ser, sim, alegria. Pode ser alívio. Pode ser exaustão. Mas também pode ser sintoma. De pressão acumulada, de desgaste político, de um governo que começa a lidar com mais perguntas do que respostas. A ponte liga margens físicas. Mas, ali, naquele instante, parecia também expor uma travessia mais delicada: a de um projeto político que tenta sustentar a própria narrativa enquanto os ruídos aumentam. No fim, a pergunta permanece. Se é só emoção, por que parece tanto preocupação?