E a coerência?

23/04/2026 16:54

A política brasileira tem um talento peculiar para produzir paradoxos — e, convenhamos, alguns são quase didáticos. Em Foz do Iguaçu, surge mais um desses casos em que o discurso público e a prática relatada parecem caminhar em direções opostas. Uma vereadora que se apresenta como defensora das mulheres aparece citada em boletim de ocorrência por suposta difamação e injúria contra outra mulher. É importante dizer: trata-se de um registro policial, não de uma sentença. Mas também é importante não fingir que isso é irrelevante. Não é. O documento relata constrangimento, ataque à honra e repercussão para além do ambiente institucional. Em bom português: não foi uma divergência trivial de bastidores. Teria ultrapassado a linha do aceitável — ao menos na versão de quem procurou a polícia. E aqui entra o ponto que realmente interessa. A política contemporânea se sustenta muito mais na construção de imagem do que na coerência entre discurso e prática. Defender uma causa em público é fácil. Difícil é sustentar essa defesa quando o comportamento pessoal é colocado à prova. Não cabe, evidentemente, condenação antecipada. O devido processo existe exatamente para isso. Mas também não cabe a indulgência automática só porque o episódio envolve uma figura pública com bandeiras bem posicionadas no debate. A pergunta que fica, e ela é inevitável: até que ponto o discurso identitário — legítimo, necessário — pode servir de escudo para práticas que, se confirmadas, negam justamente aquilo que se diz defender? No fim das contas, a política não cobra perfeição. Cobra coerência. E, quando essa falha, o problema deixa de ser individual e passa a ser de credibilidade pública.