“Fandangueando” na crise

11/04/2026 10:10

Tem gesto que dispensa legenda. E tem gesto que, de tão simbólico, escancara mais do que qualquer discurso. Em meio ao turbilhão de questionamentos que voltam a atingir contratos, cifras públicas e decisões de governo, Guto Silva surge nas redes sociais… dançando. O palco não é neutro: a marca da Copel aparece ali, ao fundo, como cenário — ou como mensagem. A imagem é quase uma síntese de um ciclo. A Copel, que já foi tratada como ativo estratégico do Estado, passou por um processo que muitos classificam como desmonte. E agora, no momento em que os efeitos dessa política ainda ecoam, o responsável por defendê-la aparece leve, solto, celebrando. A metáfora é inevitável. Para quem olha de fora, parece samba (ou, neste caso, fandango) no caixão da própria companhia — uma dança sobre aquilo que ajudou a enterrar. Não é só um vídeo. É um signo. Na política, não existe gesto inocente. Existe leitura. E, nesse caso, a leitura é dura: enquanto a crise pede explicação, a resposta vem em coreografia. Enquanto os questionamentos aumentam, o ritmo segue outro. No fim, fica a impressão de que não basta participar do processo. É preciso também celebrar sobre ele. Mesmo que o palco seja, para muitos, um velório.