Conselho ao governador

09/04/2026 17:15

Há momentos na vida pública em que o silêncio não protege — apenas agrava. O caso recente envolvendo os recursos da Copel é um desses pontos de inflexão. Os documentos do Tribunal de Contas do Estado não deixam espaço para ingenuidade institucional. Eles indicam, com base em registros de sessão de 22 de novembro de 2023 e documentos consolidados até fevereiro de 2026, que houve uma engenharia deliberada para viabilizar o uso indireto de recursos oriundos da venda da estatal por meio da chamada “troca de fonte”. E mais: apontam diretamente o então secretário de Planejamento, Guto Silva, como articulador dessa lógica. Diante disso, o governador Ratinho Júnior tem diante de si duas escolhas. A primeira é a mais confortável — fingir que tudo sempre esteve sob controle, que nada fugiu à normalidade administrativa, que se trata apenas de interpretação técnica. A segunda, mais difícil, porém mais honesta com a sociedade, é admitir uma hipótese que, neste momento, não pode ser descartada: a de que o chefe do Executivo não tinha pleno conhecimento da modelagem construída dentro do próprio governo. Se for esse o caso, governador, é hora de dizer. Porque o que o TCE expõe não é um detalhe contábil. Trata-se de uma estratégia que, segundo o próprio tribunal, não altera a finalidade original do recurso, podendo caracterizar desvio indireto ao apenas “trocar a fonte” sem mudar o destino final do dinheiro. E mais grave: o próprio relatório oficial do Executivo reconhece que obras anunciadas como financiadas pela venda da Copel “não necessariamente” utilizam esses recursos, admitindo o uso de fontes diversas. Se houve uma arquitetura técnica e política para contornar limitações legais, ela não nasce espontaneamente nos corredores da burocracia. Ela é pensada, desenhada, defendida. E, como indicam os registros do TCE, essa concepção tem nome e sobrenome. É justamente por isso que o governador precisa agir com precisão. Não se trata apenas de responder à crise — trata-se de escolher onde ela irá parar. Blindar o articulador, neste momento, significa assumir integralmente o desgaste de uma operação cuja gênese pode não ter passado pelo crivo direto do chefe do Executivo. Já estabelecer uma linha clara de responsabilidades, com transparência e firmeza, pode preservar não apenas o governo, mas a própria credibilidade das instituições. Governador, há uma diferença fundamental entre liderar um projeto e responder por ele quando seus próprios formuladores cruzam limites. Se o senhor não sabia, diga. Se sabia, explique. Mas não tente atravessar esse episódio fingindo que ele não tem dono. Porque, ao que tudo indica, tem.