A parábola do Zé

25/03/2026 16:09

O jornalista Valdir Cruz resolveu explicar o inexplicável com uma “historinha”. Colocou um personagem, Zé Galinha, do outro lado da linha, atordoado, perguntando o que aconteceu com Ratinho Júnior. E, no meio da narrativa, deixou escapar mais do que talvez pretendesse. “Que rolo é esse?”, pergunta o Zé, já representando o eleitor médio que acordou com a desistência. E segue: “O que houve de tão grave pra ele desistir? Me esclareça isso.” Não é só curiosidade. É desconfiança. A crônica cresce quando o personagem mergulha nas redes e volta ainda mais inquieto. “Quem é essa tal de Heleninha? E o que tem o Ratinho pai com o Tanuri? E com esse tal de Vorcaro?” A lista continua, como quem percorre um feed inflamado: “E o Tayayá? Ele é sócio do Dias Toffoli?”, “E os 100 milhões que sumiram da sociedade do resort?”, “E a Copel Telecom que foi vendida pro Tanure?”. Valdir tenta construir uma cena de perplexidade, mas o efeito é outro. A “historinha” funciona como inventário do que está circulando — não como explicação, mas como sintoma. O personagem não esclarece nada; ele acumula dúvidas. E dúvidas, quando organizadas assim, viram narrativa política. O ponto mais revelador está na confissão final: “Fiquei sem resposta.” E depois: “Nem eu nem ninguém está entendendo nada.” É aqui que a crônica deixa de ser inocente. Porque, ao admitir que não há respostas, ela reforça exatamente o ambiente que pretende descrever: um vácuo preenchido por suspeitas. Não é só Zé Galinha que está sem entender. É o debate público que virou uma sequência de perguntas sem resposta clara. E, nesse cenário, cada “historinha” vira peça de algo maior. Não explica, mas amplifica. No fim, a narrativa de Valdir Cruz não resolve o enigma da desistência. Apenas registra o estado das coisas: um ruído crescente, uma sucessão de nomes e episódios, e a sensação de que há mais perguntas do que versões oficiais dispostas a responder.