Diploma de ocasião

09/03/2026 06:55

Há alguns anos, quando surgiram as primeiras denúncias envolvendo um assessor ligado ao vereador de Foz do Iguaçu Cabo Cassol, o roteiro foi o de sempre: quem apontava irregularidades foi acusado de espalhar “fake news”. A reação institucional preferiu desqualificar os denunciantes a examinar os fatos. O tempo, no entanto, costuma ter uma característica incômoda na política: ele cobra recibo. Agora veio a condenação de Adilson Ramão por uso de diploma falso. A sentença fixou pena de três anos de privação de liberdade — sendo dois anos e seis meses de reclusão, seis meses de detenção e ainda 60 dias-multa. Mas a história não termina aí. Além da esfera penal, corre também um processo na área da Fazenda Pública por improbidade administrativa. A acusação sustenta que Ramão ocupou cargo público sem possuir a escolaridade exigida. Por isso, o Ministério Público do Paraná pede a devolução dos salários e benefícios recebidos no período em que ele atuou no Legislativo. A conta chega a R$ 521.965,87, valor que ainda pode ser corrigido e acrescido de juros. A defesa tentou um acordo de não persecução penal — expediente que encerraria o caso sem processo —, mas o Ministério Público se manifestou contra. O episódio tem um detalhe político inevitável. O assessor estava vinculado ao gabinete de um vereador cuja retórica costuma invocar os pilares clássicos da política moralista: “Deus, pátria e família”. Pois é. No meio do caminho apareceu também um diploma falso e uma possível devolução de mais de meio milhão de reais aos cofres públicos. E aí surge a pergunta que costuma incomodar mais do que qualquer denúncia: quem pediu desculpas aos denunciantes quando a Justiça confirmou a história?