Interrogatório de memória
09/03/2026 06:51
O ex-ministro da Comunicação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Franklin Martins, relatou ter sido detido e deportado do Panamá ao tentar seguir viagem para a Guatemala, onde participaria de um seminário sobre Estado de bem-estar social na Universidad Rafael Landívar.
Até aqui, poderia ser apenas mais um episódio burocrático em aeroportos internacionais — desses que acontecem e se resolvem com um carimbo ou uma explicação.
Mas não foi isso que chamou atenção.
Segundo o próprio Franklin Martins, durante o interrogatório no aeroporto de Tocumen, no Panamá, as perguntas se concentraram em um episódio ocorrido em 1968, quando ele foi preso em Ibiúna durante a ditadura militar brasileira.
Sim, 1968.
Mais de meio século depois, um interrogatório em aeroporto decide revisitar um episódio ocorrido no auge do regime militar brasileiro. Martins afirmou ter respondido apenas que havia sido preso por motivos políticos e que havia lutado contra a ditadura — algo que, nas palavras dele, “não era crime, mas dever para os democratas”.
A Associação Brasileira de Imprensa reagiu e publicou carta aberta ao embaixador panamenho no Brasil, Flavio Gabriel Méndez Altamirano, questionando a condução da abordagem. No documento, a entidade afirma que o jornalista teria sido detido sem explicações claras e impedido de contatar a embaixada brasileira.
O caso levanta uma dúvida curiosa sobre o funcionamento dos filtros internacionais de segurança.
Quando um interrogatório em 2026 precisa voltar a 1968 para justificar uma detenção, talvez não seja apenas um controle migratório em ação.
Às vezes, parece mais um interrogatório da história.