Quando falta ar

04/03/2026 13:32

Há coisas que, no Brasil, a gente já aprendeu a reconhecer pelo cheiro. Quando um agente público assina um acordo para encerrar investigação pagando multa, normalmente não é porque tudo estava absolutamente correto — é porque alguma coisa, no mínimo, estava errada o suficiente para precisar ser resolvida fora do julgamento. Foi o que ocorreu com o secretário de Agricultura do Paraná, Márcio Nunes. Ele firmou um Acordo de Não Persecução Cível com o Ministério Público para encerrar a investigação sobre o uso político de respiradores doados durante a pandemia de Covid-19, em 2021. Resultado: multa de R$ 23,6 mil. Convém lembrar o contexto. Em plena pandemia, quando respiradores eram literalmente equipamentos que separavam a vida da morte, qualquer tentativa de transformá-los em ferramenta de marketing político ultrapassa o limite do aceitável. Não é apenas questão administrativa; é questão moral. O acordo não é uma condenação judicial, é verdade. Mas também não é um atestado de inocência heroica. É, antes, uma forma de encerrar o caso mediante reconhecimento de responsabilidade suficiente para justificar a penalidade. E aqui fica a pergunta inevitável: R$ 23,6 mil paga o preço de transformar respiradores em ativo político? Cada um responda como quiser. Mas há momentos em que a política deveria simplesmente não aparecer. Uma pandemia, convenhamos, era um deles.