O Papa, o viaduto e os desvios de rota
03/03/2026 15:28
A Assembleia Legislativa do Paraná conseguiu, por alguns minutos, fazer o que raramente se vê no debate público contemporâneo: discutir uma homenagem sem transformá-la, ao menos de início, em palanque ideológico. Aprovou-se a denominação de um viaduto em Londrina como Papa Francisco. Nada mais simples. Nada mais simbólico.
Mas, claro, no Brasil de hoje, até a placa de concreto precisa passar pelo crivo da guerra cultural.
A homenagem ao pontífice foi defendida como reconhecimento a um líder religioso que recolocou no centro da Igreja Católica a doutrina social, a defesa dos vulneráveis e a ideia de que política, sim, também pode ser instrumento de caridade pública. Até aí, civilidade.
O problema é que, quando se menciona Papa Francisco, não demora para que surjam os intérpretes seletivos do Evangelho. Houve quem celebrasse o espírito de perdão do pontífice; houve quem aproveitasse a deixa para relembrar embates envolvendo o ministro Luís Roberto Barroso; e houve quem transformasse o viaduto em trincheira.
É curioso. O Papa que pregou diálogo, tolerância e misericórdia acaba servindo de gatilho para ironias e provocações em plenário. Fala-se de reconciliação, mas o tom é de ajuste de contas. Invoca-se a caridade, mas não se perde a oportunidade de espetar o adversário.
No fundo, a cena diz menos sobre Francisco e mais sobre nós. O pontífice argentino, gostem ou não, deslocou o eixo do debate moral para o terreno social. Isso incomoda quem prefere uma fé instrumentalizada para a política partidária. E entusiasma quem vê na religião uma força de compromisso com os excluídos.
O viaduto, por ora, seguirá firme. Já o debate brasileiro continua tropeçando na incapacidade de reconhecer que uma homenagem não precisa virar confronto. Se até o Papa, segundo lembraram, perdoa pecadores, talvez fosse útil que alguns parlamentares aprendessem com ele, ao menos quando se trata de dar nome a uma obra pública.