Lula “invadiu” a Alep

02/03/2026 17:13

A sessão era estadual, mas o personagem central acabou sendo o presidente da República. O deputado Ricardo Arruda puxou o gatilho ao transformar a tribuna num palanque nacional. Sem rodeios, partiu para o ataque direto: “Já passou da hora de pedir o impeachment desse cara” e, logo depois, elevou ainda mais o tom ao chamar Lula de “corrupto” e “bandido”. Não foi crítica política convencional — foi linguagem pensada para confronto e viralização. A reação veio no mesmo volume. A deputada Ana Júlia tentou reposicionar o debate, trazendo o bolsonarismo para o centro da narrativa. “Bolsonaro fugiu da Justiça e mudou a chefia da Polícia Federal para proteger a família”, disse, num movimento clássico de contra-ataque: não negar a briga, mas inverter o alvo. Ao dizer que “se o Lulinha fez algo errado, deve ser investigado, mas sem interferência”, ela buscou ocupar o terreno institucional, ainda que o ambiente já estivesse longe de qualquer neutralidade. O clima subiu mais quando o deputado Arilson Chiorato decidiu tirar a discussão do campo ideológico e levar para o institucional. Chamou Arruda de “parlapatão” e cobrou providências da Mesa: “Essa casa não pode aceitar esse nível de agressão.” Foi o momento em que a briga deixou de ser apenas narrativa e passou a testar o regimento. Quando alguém invoca decoro, o conflito muda de natureza — sai da disputa política e entra na disputa por autoridade dentro da Casa. Mas o ponto de ruptura veio com o deputado Renato Freitas, que levou o embate para um terreno ainda mais sensível, misturando política, religião e geopolítica. Ao atacar setores conservadores e líderes internacionais com acusações gravíssimas, elevou o tom a um nível em que o debate deixa de ser persuasão e vira catarse. A partir dali, já não se discutia Lula — discutia-se identidade política. O saldo é claro: Lula não estava na pauta, mas dominou a sessão. Não por projetos ou decisões, mas como símbolo. Para Arruda, representou o inimigo perfeito para mobilizar sua base. Para a esquerda, virou gatilho de defesa e contra-ataque. No meio disso, a Assembleia operou como um microcosmo do Brasil polarizado — onde o presidente não precisa estar presente para pautar o ambiente.