Celepar e a frase que passou batida
02/03/2026 17:11
No meio da gritaria ideológica que dominou a sessão desta segunda-feira na Alep, quem prestou atenção ouviu um recado importante do líder do governo, Hussein Bakri. Sem elevar o tom, ele deixou escapar o que pode ser a informação mais relevante do dia: a privatização da Celepar continua viva — e com pressa. Ao comentar a decisão do ministro Flávio Dino, Bakri tratou de minimizar o impacto e reposicionar o governo. “Ele apontou algumas coisas que precisavam ser melhoradas (…) e o projeto está chegando hoje e precisamos votar até a semana que vem”, disse. É o tipo de frase que, para o ouvido treinado, vale mais que um discurso inteiro.
Não se trata apenas de ajuste técnico. Quando um governo fala em votar rápido um tema sensível, está falando de estratégia. A Celepar não é uma estatal qualquer. Ela concentra dados, tecnologia e a espinha dorsal digital do Estado. Privatizar ou não privatizar mexe com servidores, com sindicatos, com contratos, com segurança da informação e, principalmente, com narrativa política. Por isso, timing é tudo. A pressa indica tentativa de manter o debate dentro do perímetro institucional antes que ele se expanda para a rua.
Ao dizer que Dino apenas “apontou melhorias”, Bakri também tentou reescrever o frame do episódio. Em vez de derrota jurídica, ajuste técnico. Em vez de freio, aperfeiçoamento. É um movimento clássico de comunicação política: absorver a decisão adversa e devolvê-la como etapa do processo. O problema é que, fora do plenário, a leitura não é necessariamente a mesma. Para a oposição e para setores do funcionalismo, a decisão do STF virou combustível para reacender a resistência.
O detalhe é que a Celepar tem histórico de mobilização. Não é tema que passa em silêncio. Sempre que volta à pauta, reativa um ecossistema inteiro: sindicatos, especialistas em dados públicos, comunidade de tecnologia e oposição organizada. E quanto mais rápido o governo tenta avançar, mais fácil vira para o outro lado construir a narrativa de “aprovação a toque de caixa”. Em política, velocidade gera eficiência — mas também gera desconfiança.
No fim das contas, enquanto o plenário discutia pedágio e travava batalhas ideológicas, a Celepar reapareceu como pauta subterrânea. Não dominou os discursos, mas deixou um rastro claro: o governo não recuou. Ajustou o passo, reorganizou o discurso e quer andar rápido.