Ironia: privilégio dos inteligentes
27/02/2026 16:45
Há algo de profundamente revelador no incômodo de Sergio Moro com as ironias de Gilmar Mendes. Não porque a troca de farpas eleve o debate. Não eleva. Mas porque escancara um problema antigo: a dificuldade de certos personagens da Lava Jato em lidar com crítica quando deixam de monopolizar o púlpito moral.
Gilmar Mendes fez o que faz há décadas: ironizou. É do seu estilo, concorde-se ou não. Mas o ponto não está na forma, e sim no alvo. Ao provocar Moro, o ministro não fala apenas de ortografia. Ressuscita um episódio antigo que virou símbolo do folclore político. Na tese de doutorado apresentada por Moro na Universidade Federal do Paraná, há um agradecimento em que aparece a palavra “testo”, em vez de “texto”, ao mencionar a revisão do trabalho. O detalhe, pequeno em si, virou munição retórica porque desmonta a imagem de infalibilidade construída ao redor do ex-juiz.
Mas a crítica de Gilmar não é gramatical. É política. Ao ironizar o episódio, ele ataca a substância. Questiona a trajetória de um magistrado que, ao longo da Lava Jato, ajudou a flexibilizar garantias jurídicas em nome de uma cruzada personalista.
A reação de Moro é previsível. Em vez de responder ao mérito, apela ao velho truque retórico: deslocar o debate. Diz que o ministro tenta desviar o foco de críticas internacionais ao Supremo. Eis o manual do lavajatismo em estado puro. Quando acuado, muda-se o assunto. Não se enfrenta a crítica. Cria-se outra pauta.
O problema é que Moro já não fala do lugar de 2016. O tempo passou. A biografia também. Aquele juiz austero, vendido como paladino solitário, hoje carrega o peso de sentenças anuladas, de parcialidade reconhecida e de uma carreira política construída sobre os escombros da própria toga.
Gilmar, com todos os seus excessos verbais, ao menos nunca se vendeu como herói incorruptível. Sempre foi o que é: um operador institucional, às vezes ácido, às vezes barroco, mas transparente em seu papel. Moro, não. Moro construiu um personagem, e personagens envelhecem mal quando confrontados com a realidade.
A ironia de Gilmar incomoda porque rompe a aura. E nada irrita mais um mito em declínio do que ser tratado como homem comum.
No fim, o incômodo não é com a piada. É com a memória. E a memória, como se sabe, é o pior adversário de biografias mal resolvidas.