O escândalo sem dono

18/02/2026 09:06

A política americana tem dessas ironias que fariam rir, não fossem trágicas. Hillary Clinton cobra transparência sobre os arquivos de Jeffrey Epstein e acusa o governo de Donald Trump de “acobertamento”. Transparência, vejam só, virou palavra de ordem num caso em que todo mundo parece querer luz — desde que não ilumine demais o próprio quintal. A Casa Branca rebate, diz que fez mais pelas vítimas que os democratas e lembra que o nome do atual presidente aparece nos documentos, embora ele negue qualquer envolvimento. Hillary, por sua vez, quer audiência pública e sustenta que ela e Bill Clinton estariam sendo usados como cortina de fumaça. Em tradução livre: todos acusam todos, enquanto a verdade segue no limbo. O fato relevante, e este não é pequeno, é que Bill deve depor após pressão do Congresso — algo inédito desde 1983 para um ex-presidente. Não se trata de espetáculo, ou não deveria ser, mas de um teste de credibilidade institucional. Quando personagens centrais de um dos maiores escândalos criminais recentes se apresentam como vítimas narrativas, é sinal de que a política tomou conta da justiça. Epstein morreu em 2019, numa prisão de Nova York, levando consigo respostas que talvez jamais venham à tona. O resto é disputa de versões. E transparência, ao que parece, virou moeda retórica: todos a defendem — desde que venha em prestações.