Alegoria seletiva

17/02/2026 14:26

Guto Silva resolveu inovar na semântica. Num dia, veste glitter digital e compartilha Carnaval em Matinhos como se fosse mestre-sala do engajamento. Multidão, trio elétrico, câmera aérea, filtro patriótico — tudo ali, com ares de “olha como eu estou no meio do povo”. Até aí, política como sempre foi: narrativa e lente bem posicionada. Mas eis que, no intervalo entre um story e outro, o secretário filosofa. Diz que o carro alegórico mais emblemático do Paraná… é uma colheitadeira. Sim, leitor. Não é o samba, não é a bateria, não é o trio. É o agro. A metáfora, claro, não é inocente. Mas a escolha da palavra entrega mais do que o autor gostaria. “Alegórico”, segundo o dicionário, é aquilo que representa uma ideia por meio de símbolos. No Carnaval, é fantasia que revela mensagem. Na política, às vezes, é fantasia que revela intenção. Guto parece querer as duas coisas ao mesmo tempo: a espuma do bloco e o grão da colheita. O confete da multidão e o palanque do agronegócio. O problema não é gostar de samba e soja. É querer transformar tudo em alegoria conveniente. Quando precisa falar com o litoral, vira foliāo digital. Quando quer acenar para a base econômica, troca o pandeiro por uma colheitadeira simbólica. O enredo muda conforme o público — e a alegoria também. Talvez o secretário só tenha escorregado na palavra. Ou talvez tenha acertado demais. Porque, no fim, “alegórico” é isso mesmo: aquilo que não é exatamente o que parece. E, convenhamos, na política paranaense, carro alegórico não falta — o difícil é descobrir quem está desfilando e quem está apenas sendo levado pelo enredo.