Memória seletiva

16/02/2026 17:35

A política brasileira tem um talento especial para a amnésia conveniente. Agora, a notícia é que o senador Ciro Nogueira teria reduzido o tom contra Luiz Inácio Lula da Silva e ensaiado uma reaproximação com o PT. Nada de ruptura dramática, apenas um silêncio estratégico depois de mais de 90 postagens críticas no ano passado. Em Brasília, isso tem nome: recalcular rota. O movimento não nasce de súbita conversão ideológica, claro. Nasce de calendário eleitoral. Quando se aproximam as urnas, os antagonismos endurecidos nas redes começam a amolecer nos bastidores. Conversas com dirigentes petistas, reuniões com aliados e a busca por palanques regionais explicam mais do que qualquer discurso público. Política, afinal, não se move por coerência — move-se por necessidade. A cena é velha conhecida: ontem, adversários inconciliáveis; hoje, interlocutores pragmáticos. E amanhã, dependendo da aritmética eleitoral, parceiros de foto. Não há novidade, apenas a confirmação de que, no Brasil, o que parece ruptura costuma ser apenas intervalo. E que ataques virulentos, muitas vezes, têm prazo de validade — até que a próxima eleição imponha uma nova narrativa.