A tribuna e o espelho
09/02/2026 15:15
Ao homenagear a Glória Transporte Coletivo na Câmara Municipal de Curitiba, a vereadora Delegada Tatiana foi além do elogio empresarial e acabou expondo uma visão de mundo que diz muito e preocupa. Em plenário, afirmou que a empresa “sustenta famílias”, que o transporte coletivo “paga indiretamente o salário dos vereadores” e chegou a desqualificar beneficiários do Bolsa Família, tratados como “vagabundos”, tudo isso enquanto celebrava uma concessionária inserida em um setor marcado por CPI, suspeitas de cartel, fraudes em licitações e investigações criminais.
O discurso inverteu papéis. Transformou concessionária de serviço público em benfeitora moral, naturalizou a dependência política de empresas privadas e criminalizou a política social, como se pobreza fosse escolha e contrato público fosse favor. Nada disse sobre investigações, denúncias ou concentração econômica no transporte coletivo. Preferiu aplaudir empresários e atacar os mais vulneráveis.
A tribuna, que deveria cobrar transparência de quem explora um serviço essencial pago pelo usuário, virou espaço de defesa ideológica do mercado e de desprezo explícito por políticas públicas de renda. No fim, a homenagem funcionou como espelho: refletiu menos a empresa celebrada e mais a confusão entre interesse público, poder econômico e preconceito social.