Erro de cálculo
09/02/2026 07:07
O pré-candidato do PSD ao Planalto, Carlos Roberto Ratinho Júnior, colocou no centro do debate eleitoral uma proposta que promete repercussão ampla: disse que, caso fosse presidente, consideraria conceder indulto a Jair Bolsonaro – uma fala que busca se aproximar do eleitorado mais à direita e repelir críticas de setores conservadores.
Mas o cenário político atual torna essa aposta mais arriscada do que aparente. Pesquisas de opinião têm mostrado consistentemente que a maioria dos brasileiros desaprova indultos presidenciais concedidos a figuras políticas controversas, como foi o caso do perdão a Daniel Silveira – rejeitado por 56% dos entrevistados em levantamento do Ipespe.
Num país ainda marcado pela polarização, recorrer ao tema do indulto pode sinalizar força a um núcleo restrito do eleitorado bolsonarista, mas dificilmente amplia o leque de apoio. Eleitores próximos ao grupo liderado por Jair Bolsonaro podem preferir figuras mais ligadas diretamente ao ex-presidente (como seu filho Flávio, por exemplo) — estrategistas avaliam que captar esse eleitorado exige mais do que palavras; pede liderança orgânica no campo conservador, algo que Ratinho Júnior ainda não consolidou.
Além disso, a consulta aos eleitores mostra que a defesa pública de um perdão presidencial a um personagem político polarizador pode irritar setores moderados e independentes, especialmente numa etapa que os institutos classificam como de forte rejeição a medidas percebidas como favorecimento político.
A leitura dos bastidores indica um cálculo claro: aproximar-se do eleitor de direita sem, no entanto, sacrificar pontos junto ao eleitor de centro. Mas a operação é delicada — e a história recente de rejeição popular a indultos sugere que esse tipo de estratégia comporta mais riscos do que benefícios imediatos.
Em síntese, a aposta de Ratinho Júnior parece uma tentativa de ampliar sua base em um universo eleitoral fragmentado. Mas numa sociedade em que temas como impunidade e responsabilidade pública ainda mobilizam a opinião, arrisca mais afastar eleitores do que atrair votos firmes do bolsonarismo consolidado.