PL sacrifica De Toni
05/02/2026 16:51
Em mais um capítulo do samba de caciques que hoje é a política nacional, o PL deixou claro que, em 2026, alianças valem mais que lealdade... inclusive a lealdade interna. Nesta quarta-feira, a deputada Caroline De Toni comunicou formalmente sua saída do Partido Liberal (PL). A decisão não foi um ímpeto pessoal nem fruto de uma “crise de identidade política”: foi a resposta lógica ao comunicado de que o partido nacional simplesmente fechou as duas vagas ao Senado por Santa Catarina, sem espaço para sua candidatura. Uma foi reservada para Carlos Bolsonaro, que mudou domicílio eleitoral do Rio de Janeiro para o estado, e a outra ficou com a federação União Brasil–PP, num desenho que satisfaz a costura de acordos regionais e nacionais. Ofereceram a De Toni um “plano B”: desistir de ir ao Senado em troca de uma vaga como vice-governadora na chapa de reeleição de Jorginho Mello ou, na falta disso, promessas de liderança partidária no futuro. Ela recusou tudo e avisou: sem chance de disputar o Senado pelo PL, vai embora. O episódio põe em evidência o que todos já sabiam, mas poucos confessam em público: a música que comanda a política hoje é a da realpolitik enlameada pelos acordos de cúpula, não a do respeito por bases eleitorais e compromissos assumidos com eleitores. De Toni, figura com base consolidada em Santa Catarina e que vinha sendo vendida como “nome forte” para a Casa Alta, viu seu projeto simplesmente ser deslocado para acomodar negociações que passeiam entre Brasília e Porto Alegre, a favor do PP.
A guinada tem custo. Não apenas para a deputada — que agora conversa com ao menos seis outras legendas para seguir na disputa —, mas para a própria direita em SC: parte do eleitorado bolsonarista, camarada de longa data de De Toni, não engole candidatura “importada” de outro estado. A real é que o PL abriga hoje dois projetos distintos: um que quer acomodar nomes por engenharia de cúpula e outro que busca prestígio e votos no território. É um mal-estar que pode se traduzir em votos dispersos nas urnas.
Por fim, há um episódio interno que beira a tragicomédia: ao externar apoio público a De Toni, Michelle Bolsonaro expôs fissuras no clã e derrubou qualquer fantasia de unidade que ainda restasse na família política.
Moral da história? No PL, alianças valem mais do que filiação e bases eleitorais — e senadores com sobrenomes “fortes” (leia-se Bolsonaro) hoje têm prioridade sobre quem construiu voto no chão. Na política real, quem disse que coerência ainda tem preço?