Privatização de PowerPoint
04/02/2026 17:26
Quando o político começa a frase com “temos coragem de fazer medidas impopulares”, o contribuinte experiente já põe a mão no bolso. Não é trauma: é estatística. No vídeo que circula nas redes, Guto Silva aparece com aquele léxico de manual corporativo — “eficiência”, “enxugamento”, “metodologia moderna”, “gestão de dados”. Tradução simultânea: preparem a privatização.
Quem faz a leitura, com todas as letras, é o paranaense Thiago Bagatin, que recentemente ficou famoso por uma participação inusitada em telejornal e resolveu gravar um “react” ao discurso. E aí mora o charme do vídeo: Bagatin funciona como aquele amigo sincero que assiste ao comercial de banco e vai narrando a pegadinha.
Guto fala em “economia do recurso público”.
Bagatin traduz: corte.
Guto fala em “enxugamento da máquina”.
Bagatin traduz: privatização.
Guto anuncia o pedido para vender a Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná.
Bagatin solta um “eu não falei?”, como quem já conhecia o roteiro.
A estatal fatura cerca de R$ 500 milhões por ano. A promessa oficial é economizar R$ 150 milhões. Até aí, o discurso cabe num slide. O problema é quando o próprio vídeo lembra que o governo já teria gasto mais de R$ 1 bilhão em contratos, consultorias, data centers, big techs e afins só para pavimentar a tal privatização. É a matemática criativa: gasta-se um bilhão para economizar cento e cinquenta milhões. Deve ser o novo método revolucionário de finanças públicas.
E há o detalhe nada trivial: não se trata de vender cadeiras ou caminhões. Estamos falando do cérebro digital do Estado — dados de saúde, educação, segurança, servidores, cidadãos. Chamar isso de “metodologia moderna de gerenciamento” é um eufemismo elegante para “vamos terceirizar o cofre”.
O “react” de Bagatin acerta justamente por isso: tira o verniz técnico e devolve a discussão ao chão da vida real. Menos PowerPoint, mais português claro. Porque, no fim, toda vez que alguém no governo fala em “coragem para fazer o que não é popular”, o paranaense já sabe: a impopularidade, curiosamente, quase nunca atinge quem decide — só quem paga a conta.