Democracia cansada

27/01/2026 17:15

Há um dado que deveria inquietar mais do que qualquer pesquisa eleitoral: o Paraná perdeu, em uma década, algo próximo de 400 mil filiados a partidos políticos. Em 2015, eram cerca de 1.000.465 cidadãos vinculados formalmente a alguma sigla. Em 2025, restam 960.723. A proporção da população filiada caiu de 8,96% para 8,08%. A política brasileira, sobretudo nos últimos anos, foi sequestrada pela lógica do confronto permanente. Não se trata mais de divergência de ideias, mas de guerra moral, de identidades armadas, de trincheiras digitais. O resultado é previsível: o cidadão comum, aquele que trabalha, paga impostos e quer soluções concretas, simplesmente desistiu de ouvir. Os números por partido ajudam a dimensionar o fenômeno, mas não explicam sozinhos o esvaziamento. O MDB lidera com cerca de 145 mil filiados, seguido pelo PSD (88 mil) e pelo PT (76 mil). Depois aparecem União Brasil (71 mil), PSDB (70 mil), PP (65 mil), PDT (56 mil), PL (54 mil), Republicanos (44 mil) e Podemos (42 mil). Mas não se iludam os dirigentes: esses números não significam vitalidade partidária. Significam, em muitos casos, inércia, filiações antigas, estruturas que sobrevivem mais por tradição do que por engajamento real. O que murchou foi o entusiasmo e ele não volta com discurso raivoso nem com slogans vazios. A polarização de confronto, aquela que troca argumento por xingamento e política pública por performance, torrou a paciência do brasileiro. O eleitor não quer ser soldado de guerra cultural. Quer Estado funcionando, serviços entregues e problemas resolvidos. Quando menos gente se dispõe a se filiar, o problema não é da democracia formal, que segue de pé. O problema é da democracia viva, participativa, que depende de partidos fortes, representativos e, sobretudo, civilizados. Se a política continuar gritando, o silêncio dos números vai aumentar. E aí, não adianta culpar o eleitor. Ele apenas foi embora.