Quando o céu cai
26/01/2026 18:37
Se a democracia ainda é um lugar de encontros e desencontros, no domingo em Brasília ela ganhou um elemento que foge às disputas retóricas: um raio. Sim, um raio — essa súbita e implacável descarga elétrica que nos lembra que há fenômenos que nenhum comício, juramento político ou militância consegue controlar. 
Durante o ato organizado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), na Praça do Cruzeiro, a chamada “Caminhada pela Liberdade” terminou em um susto que ultrapassou o mero parlamento de ideias. Centenas de participantes que se reuniam — muitos sob chuva e em condições que, convenhamos, já convidavam a perguntas sobre segurança e organização — foram pegos de surpresa quando uma descarga caiu nas imediações. 
O saldo? Cerca de 89 pessoas atendidas pelo Corpo de Bombeiros, muitas com hipotermia e queimaduras, e um número significativo de feridos encaminhados a hospitais públicos e privados. Entre eles, uma manifestante de São Paulo teve de ser transferida para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) após ser atingida pelo raio — o episódio ganha dramaticidade quando se observa que o que era para ser uma marcha virou motivo de sofrimento físico para cidadãos que acreditaram na causa e nos organizadores. 
O deputado está certo ao afirmar, como fez, que se tratou de um “incidente natural” e que “foge do nosso controle”. Em sentido estritamente meteorológico, ninguém poderia prever — ou evitar — a descarga elétrica que veio do céu. Contudo, há uma ironia – e um alerta – em tudo isso: líderes políticos que convocam multidões assumem responsabilidades que não terminam no discurso inflamado. Preparar um evento para centenas de pessoas, ao ar livre, em um dia de instabilidade climática, exige mais do que coragem e hashtags. 
O mais curioso, e talvez perturbador, nesse episódio é que ele escancara uma certa desconexão entre a retórica da mobilização e a práxis da segurança mínima. Pessoas se ferem não por falta de ideais, mas por falta de cuidado com a realidade concreta — algo que nenhum “controle externo” pode justificar por completo. 
No fim, resta a nós apenas a esperança de que os feridos se recuperem e de que episódios como esse sirvam não só para alimentar narrativas partidárias, mas para nos lembrar de que política de massa sem prudência — meteorológica ou sanitária — pode resultar em muito mais do que manchetes impressionantes.