Passagens da Sanepar bancam viagem à Itália sem marca da estatal em evento
Levantamento revela despesas com deslocamento internacional de diretora da companhia e levanta dúvidas sobre finalidade institucional e retorno de imagem à estatal
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Reprodução redes sociais
Tudo começou com uma rotina que, à primeira vista, não tem nada de glamorosa: abrir planilhas no Portal da Transparência, rolar linhas intermináveis de números e cruzar datas. É assim que a equipe da Gazeta do Paraná costuma trabalhar quando o assunto é dinheiro público. Não há discursos, fotos oficiais ou notas de assessoria. Só colunas frias: nome do servidor, motivo da viagem, origem, destino, valor. Foi numa dessas varreduras, entre deslocamentos rodoviários para o interior e voos rápidos a São Paulo para reuniões técnicas, que um registro destoou:
Curitiba.
São Paulo.
Madri.
Roma.
Roma.
São Paulo.
Curitiba.
Cinco trechos internacionais, emitidos em sequência, no mesmo pedido, todos classificados como “Serviço”. O nome vinculado às passagens: Melissa Ferreira, diretora adjunta de Comunicação e Marketing da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar). A coincidência temporal acendeu o alerta.
As datas registradas no sistema iam de 18 a 25 de janeiro. Bastou jogar esse período nas redes sociais para que a outra ponta da história surgisse quase sozinha: fotos na Itália, vídeos no Vaticano, registros ao lado de integrantes da Prefeitura de Curitiba e da Camerata Antiqua. A diretora aparecia acompanhando compromissos culturais e institucionais em Roma, integrando a comitiva que viajou com o grupo musical.
O cruzamento era direto. As passagens estavam no portal. A presença no exterior, nas redes. A pergunta que ficou foi a mais simples e a mais incômoda: a serviço de quê, exatamente, viajava a diretoria de comunicação de uma empresa de saneamento? Os documentos públicos mostram que as emissões ocorreram em cinco etapas: Curitiba–São Paulo, São Paulo–Madri, Madri–Roma, Roma–São Paulo e São Paulo–Curitiba. Todas as passagens registradas com o mesmo valor unitário: R$ 2.453,60. Cinco vezes o mesmo número, centavo por centavo, mesmo sendo trechos domésticos, intercontinentais e europeus, operados por companhias diferentes. No total, R$ 12.268,00 apenas em bilhetes aéreos.
O padrão chama atenção. No mercado aéreo, é praticamente impossível que um voo curto entre cidades europeias custe o mesmo que um deslocamento transatlântico ou um trecho doméstico. Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que esse tipo de repetição costuma indicar rateio contábil ou lançamento administrativo em bloco (quando o valor global é dividido artificialmente em parcelas iguais). O problema é que esse formato dificulta saber quanto custou, de fato, cada etapa da viagem.
Para dimensionar o custo de mercado dessa rota, a Gazeta simulou passagens em buscadores e sites de companhias aéreas para datas próximas ao período do embarque. Em classe econômica, a ida e volta entre Curitiba e Roma variava entre R$ 4 mil e R$ 5,5 mil em condições promocionais, podendo superar R$ 7 mil em compras de última hora. Foram encontradas tarifas próximas de R$ 7.600 na mesma semana. Em empresas europeias, como a ITA Airways, valores acima de R$ 5,6 mil também eram frequentes. Em classes executivas, os preços facilmente ultrapassavam R$ 14 mil, chegando a mais de R$ 20 mil.
A oscilação é grande. E justamente por isso o registro padronizado no sistema público levanta dúvidas adicionais: o que, afinal, foi comprado? Um pacote internacional? Um bilhete único fracionado? Ou há custos que não aparecem ali?
Função às moscas
A reportagem avançou então para o segundo ponto: o afastamento funcional. Pelos procedimentos internos da companhia, gestores precisam registrar férias, licença ou missão oficial quando permanecem vários dias fora do trabalho. Também devem designar substituto para responder pela área. No período da viagem, porém, não constava lançamento de férias ou licença associado à diretoria. Ou seja, nesta período a diretora apenas se fez “ausente”.
Não é um detalhe trivial. A Diretoria Adjunta de Comunicação é responsável por campanhas institucionais, relacionamento com a imprensa, gestão de imagem e, principalmente, contenção de crises. Trata-se de uma área estratégica, que exige presença contínua. Coincidentemente a viagem ocorreu na mesma semana em que a empresa completava mais um aniversário de fundação, data tradicionalmente usada para ações de divulgação institucional. O resultado? Nada além de uma arte feita com inteligência artificial publicada nas redes sociais.
Outro ponto observado pela reportagem foi a agenda externa. A turnê da Camerata tinha divulgação pública, assim como as atividades da Prefeitura de Curitiba no exterior. Patrocinadores foram listados, autoridades foram identificadas, compromissos culturais foram detalhados. Mas a Sanepar não apareceu como patrocinadora específica do evento, nem houve menção formal à presença institucional da estatal na comitiva. Se havia missão oficial relacionada ao saneamento ou à comunicação corporativa, ela não estava descrita nos materiais públicos.
Os custos do passeio de Melissa
Melissa Ferreira é jornalista, formada em Comunicação Social pelo Centro Universitário Positivo, com diploma emitido em 2003. Construiu carreira em comunicação pública, pulando de galho em galho comissionado entre os poderes. passou pela Rede Paranaense de Comunicação, atuou em assessorias institucionais e foi diretora de Comunicação do Governo do Estado do Paraná entre 2020 e 2024. Desde junho de 2024 ocupa a diretoria adjunta da Sanepar. O cargo prevê dedicação exclusiva, mas se encerra na metade deste ano. Fato que torna bastante conveniente uma agenda com o executivo municipal: quem sabe um novo “galho comissionado” precisa ser providenciado.
Além das passagens, o custo final da viagem ainda pode incluir diárias, hospedagem, alimentação e traslados, despesas que normalmente aparecem em outros relatórios do portal de transparência, mas não estavam lá. Esses valores não estavam consolidados no momento da consulta inicial, o que significa que o montante total pode ser superior aos R$ 12 mil já identificados.
A Gazeta encaminhou questionamentos à companhia e à gestora pedindo esclarecimentos sobre a finalidade administrativa do deslocamento, eventual autorização formal, natureza das despesas e quem respondeu pela diretoria durante o período. Até o fechamento desta edição, não houve manifestação. Os dados públicos, no entanto, permanecem lá. Objetivos, verificáveis e acessíveis a qualquer cidadão.
E, às vezes, é assim que uma história começa: não com um anúncio oficial, mas com cinco linhas idênticas numa planilha. Cinco números repetidos. Cinco passagens iguais. E uma viagem que ainda carece de explicação.
Política de patrocínio
Importante explicar que a própria narrativa institucional da companhia adiciona um elemento de contraste à apuração. Em notícia publicada em seu site oficial, a Companhia de Saneamento do Paraná afirma que a turnê internacional da Camerata Antiqua de Curitiba ocorreu com patrocínio da estatal e apresenta o apoio como parte do compromisso da empresa com a cultura paranaense. O discurso, no entanto, esbarra nos próprios critérios internos da companhia. A Política de Patrocínio da Sanepar estabelece que qualquer repasse de recursos deve resultar em associação direta da marca, com exposição institucional, inserção de logomarcha e contrapartidas publicitárias mensuráveis.
No material oficial de divulgação da turnê - cartazes, peças gráficas e identidade visual dos concertos - a logomarca da empresa simplesmente não aparece. A ausência chama atenção porque esvazia justamente o fundamento que justificaria o patrocínio: a visibilidade institucional. Na prática, enquanto a norma exige retorno de imagem comprovável, a principal peça pública do evento não registra qualquer menção à companhia. No portal da transparência da companhia também não consta informações sobre o patrocínio em questão. Esta constatação também foi alvo de questionamentos da nossa equipe de reportagem. Questionamentos que não foram respondidos.
Atualização: (17h15)
Em nota, a Companhia de Sanepamento do Paraná afirmou que "a participação de representante da Sanepar na Comitiva Oficial que acompanhou a Camerata Antiqua na turnê em Roma foi a convite do Instituto Curitiba de Arte e Cultura (ICAC), que viabilizou, junto com a Fundação Cultural de Curitiba, as apresentações da orquestra em diversos eventos na cidade italiana. Os concertos foram alusivos aos 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e a Santa Sé. O convite se justifica pela relação institucional que a companhia tem com o grupo, já que patrocina, por meio da Lei Rouanet, o Projeto anual da Camerata Antiqua, cujas contrapartidas estão definidas em contrato. Importante reforçar que tal convite foi uma oportunidade de levar o nome da Sanepar para fora do país, de forma a apresentar a empresa não só como referência em saneamento, mas também como incentivadora da cultura paranaense, por meio da sua política de patrocínio. Além de acompanhar a programação, a viagem permitiu conhecer outros formatos e arranjos de apoio e estabelecer contatos com gestores da cultura de outras instituições visando potenciais parcerias e melhorias no processo de patrocínio contribuindo, assim, para viabilizar as diferentes manifestações populares e eruditas praticadas no Paraná".
A nota ainda destaca que "a relevância da Sanepar para a cultura do estado tem em sua capilaridade uma das variáveis que possibilita estar presente em projetos realizados em grande parte dos municípios paranaenses. Atua em 345 municípios, o que significa dizer que leva água tratada para 11 milhões de pessoas contribuindo, efetivamente, para o desenvolvimento econômico, social e cultural do Paraná. Hoje a Sanepar é a maior empresa estadual de saneamento do País e vem consolidando seu papel de referência nacional e internacional em saneamento ambiental, fazendo parte de um seleto grupo de empresas mundiais que tecnicamente são a vanguarda do setor. Há 63 anos a Companhia de Saneamento do Paraná vem trabalhando para promover saúde e qualidade de vida à população. A Sanepar se faz cada vez mais presente nas políticas públicas estruturantes, podendo destacar as sociais e culturais. Por isso a importância da participação da Sanepar em eventos onde é possível conhecer experiências inovadoras e exitosas e identificar potenciais parceiros em todas as áreas de atuação da Companhia".
Apesar do posicionamento institucional, a resposta da Sanepar limitou-se a justificar a viagem como convite do Instituto Curitiba de Arte e Cultura e a reforçar, de forma genérica, o papel cultural da companhia, sem enfrentar os pontos objetivos questionados pela reportagem. Embora questionada, a empresa não informou o custo total do deslocamento, não detalhou valores de passagens, diárias ou eventuais reembolsos, não esclareceu se houve ato formal de autorização ou qual a classificação administrativa do afastamento da gestora, tampouco apresentou o valor do contrato de patrocínio ou as contrapartidas de imagem previstas. Também não explicou por que a logomarca da estatal não aparece no material oficial da turnê, nem disponibilizou documentos comprobatórios das supostas ações de divulgação institucional. Em síntese, as questões centrais relacionadas a gastos públicos, transparência financeira e retorno de imagem (foco do questionamento enviado) permaneceram sem resposta objetiva.
