Atlas da Violência aponta Cascavel acima da média do Paraná em homicídios
Levantamento aponta 80 mortes violentas em 2024 e reforça alerta para segurança pública em cidades médias do Oeste paranaense
Créditos: Reprodução/CGN
O novo Atlas da Violência 2026 colocou Cascavel em uma posição de atenção dentro do cenário da segurança pública no Paraná. O levantamento, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que o município registrou 80 homicídios em 2024, alcançando taxa de 22 mortes por 100 mil habitantes índice acima da média estadual e próximo da média nacional estimada.
Embora o Paraná apresente números melhores que boa parte dos estados brasileiros, especialmente em comparação com regiões do Norte e Nordeste, o estudo aponta que a violência letal segue elevada e com sinais de estabilidade preocupante. Em cidades médias e polos regionais, como Cascavel, os dados indicam necessidade de políticas locais específicas e acompanhamento permanente dos indicadores.
Segundo o Atlas, Cascavel possuía população estimada de 364.104 habitantes em 2024. Como o município não apresentou registros de homicídios ocultos categoria usada para estimar mortes violentas possivelmente classificadas de forma incorreta o total registrado e o total estimado permaneceram iguais: 80 homicídios. A taxa de 22 mortes por 100 mil habitantes ficou acima da taxa oficial do Paraná, de 18,6, e também superior à estimativa estadual ajustada, próxima de 19,5 quando considerados os homicídios ocultos.
O relatório destaca que Cascavel exerce papel estratégico no Oeste do Paraná. A cidade concentra atividades econômicas, serviços de saúde, educação, logística e circulação regional de pessoas e mercadorias. Apesar de o Atlas não atribuir causas específicas para os homicídios registrados no município, os pesquisadores apontam que a violência em cidades médias não pode mais ser tratada apenas como reflexo das capitais ou regiões metropolitanas.
Na comparação com outros municípios paranaenses acima de 100 mil habitantes, Cascavel aparece em situação intermediária. O município ficou abaixo de cidades como Foz do Iguaçu, que teve taxa estimada de 27,1 homicídios por 100 mil habitantes, além de Pinhais, Piraquara, Campo Mourão, Apucarana e Guarapuava. Ainda assim, ficou acima de Toledo, outro importante polo do Oeste, que registrou taxa de 16,4 homicídios por 100 mil habitantes.
O Atlas também chama atenção para o comportamento da violência em municípios médios. Em 2024, cidades com população entre 100 mil e 500 mil habitantes apresentaram a maior taxa média de homicídios estimados do Brasil: 24,1 mortes por 100 mil habitantes. Cascavel se encaixa justamente nesse grupo populacional, onde a violência muitas vezes possui menor visibilidade nacional, mas grande impacto regional.
No cenário estadual, o Paraná registrou 2.194 homicídios em 2024, redução discreta de 0,9% em relação a 2023, quando foram contabilizados 2.214 casos. A taxa caiu de 18,9 para 18,6 homicídios por 100 mil habitantes. Apesar da melhora em comparação ao pico registrado há uma década, o estudo aponta que os números recentes indicam uma espécie de estabilização em patamar ainda elevado.
Em 2014, o Paraná apresentava taxa de 27,1 homicídios por 100 mil habitantes. Dez anos depois, houve redução de 31,4%. Porém, quando a comparação é feita com 2019, o cenário muda: a taxa estadual aumentou 1,6% e o número absoluto de homicídios cresceu 4,7%. Para os pesquisadores, isso mostra que o estado ainda não consolidou uma trajetória contínua de queda da violência letal.
Um dos pontos centrais do Atlas da Violência 2026 é justamente a diferença entre homicídios registrados oficialmente e homicídios estimados. O estudo mostra que muitas mortes violentas acabam classificadas como “causa indeterminada” nos sistemas de saúde e segurança. Com o uso de modelos estatísticos e aprendizado de máquina, os pesquisadores estimam quantos desses casos podem ter sido homicídios ocultos.
No Brasil, os registros oficiais apontaram 42.590 homicídios em 2024. Porém, quando entram os homicídios ocultos, o total estimado sobe para 49.673 mortes violentas. Isso significa que o país teve 7.083 homicídios ocultos no período, representando 14,3% do total estimado.
No Paraná, os homicídios ocultos estimados somaram 111 casos em 2024, número inferior ao registrado no ano anterior. Somados aos homicídios oficiais, o total estimado do estado chegou a 2.305 mortes violentas.
O levantamento também evidencia diferenças importantes dentro do próprio Oeste paranaense. Enquanto Cascavel registrou 80 homicídios e taxa de 22 por 100 mil habitantes, Foz do Iguaçu apresentou o mesmo número absoluto de homicídios estimados, mas taxa maior devido à menor população. Já Toledo apareceu com indicadores significativamente inferiores.
A comparação reforça a avaliação de que o Oeste do Paraná não pode ser analisado como uma região homogênea em termos de segurança pública. Cada município apresenta dinâmicas próprias relacionadas a crescimento urbano, circulação econômica, fronteira, logística, desigualdade social e atuação do crime organizado.
Outro dado relevante apontado pelo Atlas é a violência entre jovens. Em todo o Brasil, foram registrados 19.801 homicídios de pessoas entre 15 e 29 anos em 2024. Mesmo com queda nacional de 9,4%, a taxa brasileira nessa faixa etária permaneceu alta, em 42,2 homicídios por 100 mil jovens. No Paraná, a taxa foi de 34 por 100 mil habitantes jovens, acima da média geral do estado.
Além da violência letal, o Atlas dedicou um capítulo às mortes no trânsito. Em 2024, o Brasil registrou 37.150 mortes no transporte terrestre, crescimento impulsionado principalmente pelos acidentes com motocicletas. O cenário preocupa especialmente regiões como o Oeste do Paraná, caracterizadas pelo intenso fluxo rodoviário, transporte de cargas e circulação regional.
As motocicletas foram responsáveis por 15.459 mortes no país em 2024, quase 2 mil a mais que no ano anterior. Para cidades como Cascavel, onde há forte dependência de deslocamentos rápidos, serviços de entrega e mobilidade regional, o tema também passa a integrar o debate sobre segurança pública e planejamento urbano.
O Atlas da Violência 2026 reforça que o enfrentamento da violência depende de integração entre forças de segurança, políticas de prevenção social, proteção da juventude, presença territorial qualificada e uso eficiente de dados públicos. Para Cascavel, os números indicam que a cidade está distante dos cenários mais críticos do país, mas já apresenta indicadores suficientes para justificar atenção permanente e ações específicas voltadas à redução da violência letal.
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