Mensagens de Vorcaro expõem influência sobre manchetes e decisões editoriais em veículos de imprensa
Conversas extraídas pela Polícia Federal indicam pedidos de alteração em reportagens, veto a temas e negociações envolvendo publicidade; episódios levantam questionamentos sobre a independência editorial e a relação entre redações e interesses comerciais
Mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, revelam como ele teria buscado influenciar a cobertura jornalística de diferentes veículos de comunicação. Os diálogos, extraídos pela Polícia Federal do celular do empresário, indicam pedidos de mudanças em textos e manchetes, sugestões de pautas favoráveis aos seus negócios e tentativas de impedir a publicação de conteúdos considerados.
As conversas mencionam relações com profissionais e empresas ligados a veículos como Metrópoles, Brazil Journal, IstoÉ, PlatôBR, Diário do Centro do Mundo (DCM) e CartaCapital. Os registros também envolvem Frederic Kachar, então diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, que deixou o cargo após a divulgação das mensagens.
Os episódios apresentam diferentes níveis de envolvimento. Em alguns casos, os diálogos indicam que Vorcaro recebeu reportagens antes da publicação e sugeriu alterações que teriam sido atendidas. Em outros, aparecem negociações comerciais, pedidos de destaque para pessoas de seu interesse ou tentativas de restringir a cobertura de determinados assuntos.
O conjunto das conversas levanta uma questão central para o jornalismo: até que ponto relações comerciais, patrocínios e proximidade com fontes podem interferir na independência das redações e na informação oferecida ao público?
REPORTAGENS ERAM ENVIADAS ANTES DA PUBLICAÇÃO
Um dos casos mais detalhados envolve o Metrópoles. Segundo os registros divulgados, a CEO do grupo, Lilian Tahan, mantinha contato direto com Vorcaro e encaminhava a ele reportagens antes de serem publicadas.
Um levantamento das conversas identificou pelo menos 14 textos enviados previamente ao banqueiro. Em 11 deles, teriam ocorrido alterações após pedidos de Vorcaro. Também foram identificados registros de duas reportagens publicadas a pedido do empresário.
Em um dos episódios, Vorcaro questionou uma informação sobre uma suposta proposta de compra de ativos do Banco Master por R$ 1. A resposta de Tahan foi direta: “Tiramos”.
Em outra conversa, o banqueiro sugeriu alterações em uma reportagem sobre o diretor do Banco Central Renato Gomes, que havia se posicionado contra a aquisição do Master pelo BRB. Vorcaro pediu a retirada de referências à situação financeira do banco e sugeriu mudanças na abordagem. As solicitações teriam sido incorporadas ao texto.
As conversas também registram um pedido para reduzir temporariamente a cobertura sobre Ricardo Cappelli, crítico da operação envolvendo o Master e o BRB. Ao receber a solicitação, Tahan respondeu: “Deixa comigo”.
A relação ocorreu em um período no qual o Banco Master negociou contratos publicitários com o grupo. As mensagens citam um acordo de R$ 20 milhões, além de outros pagamentos relacionados a projetos comerciais.
Questionada sobre o envio de textos ao banqueiro, Lilian Tahan afirmou que consultar fontes para verificar se uma matéria reflete o contexto apresentado é uma prática adotada com empresários, políticos e integrantes do Judiciário. Ela também negou que o contrato publicitário tivesse relação com a cobertura jornalística e argumentou que o veículo publicou reportagens críticas sobre as empresas ligadas a Vorcaro.
BRAZIL JOURNAL E PLATÔBR
As conversas também indicam influência sobre conteúdos do Brazil Journal. Segundo os registros, o fundador do site, Geraldo Samor, enviava a Vorcaro textos relacionados ao Banco Master antes da publicação e atendia a solicitações de alteração.
Em uma reportagem sobre a reorganização societária do banco, por exemplo, Vorcaro pediu a retirada de uma expressão relacionada ao agronegócio. Em outro caso, solicitou que o texto sobre a aquisição do Will Bank não mencionasse o Voiter, preferindo uma abordagem mais genérica sobre a reorganização societária.
As mensagens apontam ainda para relações empresariais envolvendo a Foone, empresa ligada a Flávio Carneiro, que atuava como assessor de imagem de Vorcaro e tinha participação em negócios relacionados ao site.
No caso do PlatôBR, as conversas indicam que Carneiro encaminhava minutas de reportagens ao banqueiro para avaliação antes da publicação. Em março de 2025, Vorcaro reclamou do destaque dado a um tema relacionado a precatórios em uma entrevista com o presidente do BRB. Carneiro respondeu que faria a alteração.
Em outras mensagens, Vorcaro pediu que o site evitasse publicar informações sobre os políticos Ciro Nogueira e Antônio Rueda. Também solicitou a produção de conteúdo crítico contra Ricardo Cappelli.
Os diálogos indicam, portanto, que a relação não se limitava à publicidade ou à apresentação de informações por uma fonte. Em determinadas situações, o banqueiro teria participado da definição do enfoque editorial e da escolha dos assuntos que deveriam ganhar destaque ou ser evitados.
ISTOÉ, DCM E CARTACAPITAL
As mensagens também apontam relações envolvendo a revista IstoÉ e a IstoÉ Dinheiro. Segundo os registros, Vorcaro teria encomendado conteúdo de capa sobre a farmacêutica Biomm, empresa na qual havia investido.
Em uma conversa, o banqueiro afirmou que era na IstoÉ que eles “controlavam mais”. As mensagens também indicam que Carneiro recebia orientações sobre a publicação, ou não, de conteúdos envolvendo políticos específicos.
No Diário do Centro do Mundo, as conversas sugerem uma negociação de pagamentos mensais para evitar a publicação de críticas ao banqueiro e ao Banco Master. Segundo os registros, o assessor de Vorcaro informou que o acordo permitiria retirar conteúdos negativos e publicar materiais favoráveis a pessoas escolhidas.
Em maio de 2025, depois que o site publicou um artigo crítico ao banco, Vorcaro pediu que o texto fosse retirado imediatamente. O assessor respondeu que a publicação havia sido apagada no mesmo dia.
O DCM foi procurado para comentar as informações. Na ocasião da divulgação das mensagens, seu posicionamento ainda não havia sido apresentado.
Já na CartaCapital, os diálogos mostram uma relação comercial anterior, iniciada quando o Banco Máxima, que posteriormente passou a se chamar Master, firmou um contrato de patrocínio com a revista. As conversas também registram discussões sobre dificuldades financeiras da publicação e a possibilidade de Vorcaro investir no negócio.
A publisher da revista, Manuela Carta, afirmou que os contratos eram de publicidade e seguiam as regras do mercado. Ela negou que Vorcaro tenha pedido a publicação de notícias positivas ou interferido no conteúdo jornalístico, ressaltando que a separação entre a área comercial e a redação deve ser preservada.
EXECUTIVO DO GRUPO GLOBO DEIXA O CARGO
A divulgação das mensagens também levou ao desligamento de Frederic Kachar da direção-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, função que abrangia negócios como os jornais O Globo, Extra e Valor, revistas da editora e o Sistema Globo de Rádio.
As conversas entre Kachar e Vorcaro incluíam negociações de patrocínio para eventos e pedidos de destaque para Martha Graeff, então namorada do banqueiro. Em uma das mensagens, Vorcaro sugeriu que ela recebesse uma capa da revista Vogue. Kachar respondeu que tentaria viabilizar espaço em outras publicações do grupo.
Os diálogos também registram conversas sobre reportagens e eventos patrocinados pelo banco. Em contrapartida, as mensagens mostram situações em que Kachar contestou reclamações de Vorcaro sobre conteúdos críticos publicados por jornalistas do grupo, defendendo a necessidade de apresentar os diferentes lados de uma questão.
Em comunicado, o presidente do Grupo Globo, João Roberto Marinho, afirmou que as conversas revelaram uma relação inadequada entre o executivo e um anunciante. O grupo reafirmou seu compromisso com a ética, a transparência e a independência editorial, sustentando que sua cobertura sobre o caso Master foi crítica e independente de relações comerciais.
PUBLICIDADE E JORNALISMO SOB QUESTIONAMENTO
A existência de contratos publicitários entre empresas e veículos de comunicação não representa, por si só, uma irregularidade. O problema surge quando a relação comercial passa a ser utilizada para interferir na seleção de pautas, na redação de reportagens ou na decisão de publicar informações de interesse público.
A distinção entre publicidade e conteúdo jornalístico é um princípio essencial para a credibilidade da imprensa. Quando uma fonte tem acesso antecipado a reportagens e consegue determinar alterações ou impedir publicações, a independência editorial fica sob questionamento.
As mensagens atribuídas a Vorcaro não demonstram que todas as reportagens dos veículos citados tenham sido influenciadas, nem permitem generalizar a conduta de profissionais específicos para todas as equipes e publicações. Os casos precisam ser analisados individualmente, considerando o conteúdo integral das conversas, os contratos envolvidos e as manifestações dos citados.
Ainda assim, os registros expõem relações que exigem esclarecimento público. A credibilidade do jornalismo depende não apenas da veracidade das informações publicadas, mas também da confiança de que as decisões editoriais são tomadas em função do interesse público e não dos interesses particulares de anunciantes, empresários ou fontes poderosas.
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