Corbélia

Hugo Motta tratou com Vorcaro de “sociedade” em terreno de R$ 45 milhões

Conversas extraídas pela PF do celular de Vorcaro mostram Motta tratando com o banqueiro sobre a compra de área de 400 hectares em João Pessoa

Gabriel Porta · · 5 min de leitura
Motta tratou com Vorcaro de terreno de 400 hectares em João Pessoa
Motta tratou com Vorcaro de terreno de 400 hectares em João Pessoa — Crédito: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, mostram o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), tratando com o banqueiro sobre a compra de um terreno em João Pessoa, na Paraíba. Em uma das conversas, o parlamentar menciona um “formato de sociedade” que teria sido combinado para a operação.

O conteúdo foi divulgado nesta segunda-feira (28) pelo site Fatos Online e confirmado pela Folha. As mensagens começam em março de 2024 e mostram também uma relação de proximidade entre Motta e Vorcaro. Os dois se tratavam como “amigo” e “irmão”.

O terreno, com mais de 400 hectares, pertencia a uma antiga fábrica de cimento em João Pessoa e foi adquirido por R$ 45 milhões. O imóvel estava registrado em uma operação envolvendo uma empresa da cunhada de Motta, que recebeu um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões do Banco Master.

Segundo reportagem anterior da Folha, a Polícia Federal identificou mensagens indicando que o próprio Motta teria pedido a Vorcaro a liberação do empréstimo para a empresa da cunhada.

Motta fala sobre formato de sociedade

Em 9 de março de 2024, Motta procurou Vorcaro para tratar da negociação da área em João Pessoa. Na mensagem, o deputado afirmou que estava reunido com pessoas envolvidas na compra e disse que a empresa estava sendo transferida para sua cunhada.

Motta afirmou ainda que a negociação com a antiga proprietária não contemplava, segundo ele, o formato de sociedade que havia sido combinado.

Na sequência, pediu orientação a Vorcaro sobre como deveria proceder, alegando que o prazo para o pagamento à Intercement, empresa que atuava na produção de cimento, era curto.

Quatro dias depois, Motta voltou a tratar do negócio com o banqueiro. Ele afirmou que seu sogro estava presente e que haviam sido resolvidas as assinaturas necessárias para dar continuidade ao pagamento.

“Se vc achar conveniente, analisa e me avisa”, escreveu o parlamentar, segundo as mensagens divulgadas.

Em 15 de março, Motta agradeceu a Vorcaro pela “confiança e parceria” e afirmou que o contrato havia sido cumprido dentro do prazo.

“Depois vamos marcar uma conversa para traçar os próximos passos, acredito que vamos ter sucesso no projeto”, escreveu.

Vorcaro respondeu que estava “muito feliz de estarmos juntos” e afirmou que aquele seria o início de uma “parceria de vida”. Motta respondeu que a admiração era recíproca.

Terreno custou R$ 45 milhões

A negociação resultou na compra, em abril de 2024, de uma área de mais de 400 hectares onde funcionava uma fábrica de cimento desativada em João Pessoa. O terreno deverá ser utilizado para a implantação de um novo bairro.

A área tem quase três vezes o tamanho do Parque Ibirapuera, em São Paulo. O valor pago pelo imóvel foi de R$ 45 milhões, enquanto o valor fiscal registrado nas matrículas chegava a R$ 101 milhões.

O valor fiscal é calculado pelo município e utilizado como referência para a cobrança de impostos. A diferença entre os valores fiscal e de compra, por si só, não indica irregularidade na operação.

Conversas citam mercado de carbono

Os diálogos também mostram que Vorcaro procurou Motta para tratar de um projeto relacionado ao mercado de carbono.

Em novembro de 2024, o banqueiro perguntou ao deputado se poderia encontrá-lo. Motta respondeu que estava pegando o texto de uma proposta aprovada pelo Senado para encaminhá-la a Vorcaro.

O conteúdo das mensagens mostra a interlocução entre os dois sobre o projeto, mas não demonstra, isoladamente, que tenha ocorrido favorecimento legislativo.

FGC também aparece nas mensagens

O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é citado em outra conversa, de 23 de março de 2024.

Na ocasião, Motta pediu a Vorcaro que lembrasse sua equipe de preparar um estudo sobre um assunto relacionado ao fundo. O deputado sugeriu que os dois voltassem a conversar sobre o tema caso o banqueiro fosse a Brasília.

A mensagem não detalha qual era o assunto específico relacionado ao FGC nem qual seria o objetivo da conversa.

Vorcaro colocou avião à disposição

As mensagens também registram uma conversa sobre uma aeronave.

Em 27 de abril de 2024, Motta perguntou a Vorcaro de onde partiria o avião que o levaria de Guarulhos, em São Paulo, para Brasília.

“Já vai estar te esperando”, respondeu o banqueiro.

Motta nega irregularidades

Em nota enviada por sua assessoria, Hugo Motta afirmou que, durante os quatro mandatos como deputado, sempre manteve diálogo com diferentes setores do empresariado e da sociedade.

O presidente da Câmara negou que as mensagens revelem qualquer ilícito ou favorecimento.

“Enfatizo que não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados e repudio a tentativa de atribuir conversas descontextualizadas a qualquer relação de interesse espúrio ou de favorecimento por minha parte”, afirmou.

Motta também declarou que tem uma trajetória política sem irregularidades e disse que o empréstimo feito pela empresa privada ocorreu antes de se tornarem públicos os fatos e as investigações relacionados ao Banco Master e a Vorcaro.

“Reitero que confio nos órgãos responsáveis pelas investigações, a quem cabe responder pelas apurações”, afirmou.

A existência das mensagens já havia sido parcialmente revelada em reportagens anteriores. Segundo a Folha, os diálogos relacionados ao pedido de empréstimo para a empresa da cunhada ainda estavam sob análise da Polícia Federal.

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